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MVP e Startups

Primeiros 100 usuários do MVP: como conseguir sem gastar com anúncios (e o que eles precisam te ensinar antes de você construir mais)

Gabriela Dionelli · · 8 min de leitura

a group of people standing in a room

Você passou meses nisso. O MVP está pronto, ou quase. Aí bate a pergunta que ninguém te preparou para responder: e agora, como as pessoas vão ficar sabendo? Você publica, manda o link para uns amigos, posta no LinkedIn. Chegam vinte cadastros na primeira semana, depois três, depois nenhum. Silêncio. E o pensamento seguinte costuma ser o mais perigoso: "falta uma funcionalidade" ou "preciso investir em tráfego pago".

Respira. Vamos por partes. Esse silêncio é a regra, não a exceção, e quase nunca se resolve com mais código nem com anúncio. Ele se resolve com um trabalho manual, meio desconfortável, que quase todo produto que hoje tem milhares de usuários precisou fazer no começo: conseguir os primeiros cem, um por um.

Os primeiros 100 usuários não são clientes, são pesquisa

A pergunta certa não é "como eu divulgo o meu MVP". A pergunta certa é: quem são as 100 pessoas que sentem esse problema com tanta força que vão aceitar usar um produto incompleto?

Essa mudança de ângulo muda tudo. Se os primeiros 100 fossem clientes, o objetivo seria volume e o caminho seria anúncio. Como eles são pesquisa, o objetivo é aprendizado e o caminho é conversa. Você não quer 100 pessoas quaisquer. Você quer 100 pessoas que reclamam, que voltam, que mandam mensagem quando algo quebra. Um usuário que some sem dizer nada não te ensina nada.

Existe um motivo psicológico para isso. Quando alguém entra num produto por um anúncio, o compromisso é zero: clicou porque a imagem era bonita, saiu porque a primeira tela não fez sentido. Quando alguém entra porque você falou com ela, explicou o problema que resolve e pediu ajuda para testar, outro mecanismo entra em jogo: a pessoa se sente parte da coisa. Ela tolera bugs, dá feedback, indica. Esse compromisso não escala, e justamente por isso vale ouro no começo.

O caminho passo a passo (e quanto custa cada etapa)

1. Escreva quem são os 100 antes de procurar (R$ 0)

"Qualquer pessoa que organiza eventos" não é um público, é uma multidão. "Produtores de festas universitárias em São Paulo que vendem ingresso pelo WhatsApp" é um público. Quanto mais estreito, mais fácil de encontrar, mais fácil de convencer e mais claro o feedback. Escreva em uma frase: quem é, onde está, o que faz hoje para resolver o problema. Se você não consegue completar a frase, o problema não é divulgação, é definição.

2. Liste 20 nomes reais (R$ 0)

Não 20 perfis. 20 pessoas com nome, que você conhece ou consegue alcançar com uma apresentação. Abra o celular, o LinkedIn, o histórico de e-mail. Se você não chega a 20, isso é um sinal importante sobre a distância entre você e o mercado que escolheu, e é melhor descobrir agora do que depois de contratar desenvolvimento.

3. Vá onde essas pessoas já conversam (R$ 0)

Grupos de WhatsApp e Telegram do nicho, comunidades no Discord, eventos presenciais, grupos de Facebook que continuam ativos em muitos setores no Brasil. A regra: entre para ajudar, não para vender. Responda perguntas, comente problemas e só depois de ter alguma presença mencione que está construindo algo para isso e procura gente para testar. Quem chega vendendo no primeiro dia é expulso ou ignorado.

4. Faça onboarding na mão, um por um (R$ 0 em dinheiro, bastante em tempo)

Esqueça o tutorial automático por enquanto. Marque uma chamada de 20 minutos, ou faça pelo WhatsApp mesmo, e acompanhe a pessoa usando o produto pela primeira vez. Não explique antes. Observe onde ela trava, o que pergunta, o que faz diferente do que você imaginou. Essa é a pesquisa de usabilidade mais barata que existe, e nenhuma ferramenta de analytics substitui ver a cara de confusão de alguém ao vivo.

Sim, isso não escala. Não precisa escalar. Você vai fazer isso 100 vezes, não 100 mil.

5. Peça algo em troca (R$ 0)

Aqui muita gente trava por vergonha. Mas pedir é parte do teste. Peça pagamento, mesmo simbólico, se o seu modelo é pago. Peça indicação de mais duas pessoas. Peça 10 minutos de feedback na semana seguinte. O que a pessoa aceita ou recusa diz mais sobre o valor do produto do que qualquer elogio. "Adorei" de graça não vale nada. "Adorei" seguido de um Pix de R$ 29 vale muito.

6. Registre tudo numa planilha (R$ 0)

Uma linha por pessoa: de onde veio, quando entrou, o que fez na primeira sessão, se voltou na semana seguinte, do que reclamou, quem indicou. Em 100 linhas você terá padrões que nenhuma reunião de brainstorm produziria: qual canal traz gente que fica, qual funcionalidade ninguém usa, qual reclamação se repete. Essa planilha é o seu roadmap real.

7. Só então, teste um canal pago pequeno (R$ 300 a R$ 1.000)

Quando você já sabe quem fica e por quê, faz sentido colocar um valor pequeno em anúncio para testar se aquele perfil pode ser alcançado de forma repetível. Antes disso, anúncio só amplifica um funil que vaza. Você paga para trazer gente que sai na primeira tela e conclui, errado, que o mercado não quer o produto.

Produto de dois lados: por onde começar quando um lado depende do outro

Se o seu MVP é um marketplace ou uma plataforma com dois lados (quem oferece e quem consome), o problema dos primeiros 100 fica mais difícil, porque cada lado só enxerga valor se o outro já estiver lá. O erro clássico é tentar abrir os dois ao mesmo tempo e ficar com uma feira vazia dos dois lados.

O caminho que funciona é escolher o lado mais difícil de conseguir, normalmente a oferta, e concentrar toda a energia nele primeiro, mesmo que seja na mão. Poucos fornecedores bons, cuidados de perto, antes de qualquer esforço com o público. Um lado com conteúdo real atrai o outro; um lado vazio afasta os dois. E enquanto a oferta é pequena, restrinja a demanda também: uma cidade, um bairro, um tipo de evento. Densidade em um lugar pequeno vale mais que presença rala em todo lugar.

As armadilhas que queimam dinheiro nessa fase

  • Anunciar antes de ter retenção. Um fundador gasta R$ 4 mil em anúncios no Instagram, traz 600 cadastros e, uma semana depois, 11 continuam ativos. O anúncio funcionou. O produto ainda não. Ele descobre isso R$ 4 mil mais pobre, quando podia ter descoberto com 20 pessoas e uma planilha.
  • Confundir amigos e família com sinal de mercado. Sua mãe vai baixar. Seu melhor amigo vai elogiar. Nenhum dos dois tem o problema que você resolve. Conte esses usuários em separado e não tome decisão com base neles.
  • Medir downloads e cadastros. Cadastro é a métrica mais confortável e menos útil. A pergunta que importa nas primeiras semanas é: quantas pessoas voltaram na segunda semana sem você chamar? Se esse número é zero, nada mais importa ainda.
  • Construir a funcionalidade que "falta" em vez de conversar. Quando o silêncio bate, voltar para o código é confortável porque é o que você controla. Mas cada semana construindo sem falar com usuário é uma semana apostando no escuro. Isso você consegue validar essa semana, sem gastar nada: mande mensagem para dez pessoas que sumiram e pergunte por quê. As respostas costumam ser desconcertantes e valem mais que um mês de desenvolvimento.

Como isso funcionou na prática com a Revo

Na OCA a gente não fala disso por teoria. A Revo, nossa plataforma de descoberta de eventos e venda de ingressos, hoje tem mais de 40 mil usuários cadastrados e passa de 300 eventos por mês. Ela não nasceu assim. Nasceu com um punhado de eventos, produtores atendidos um a um e a gente acompanhando de perto cada venda para entender onde as pessoas travavam.

O checkout que hoje converte 90% é resultado direto desse acompanhamento: cada campo removido e cada passo cortado vieram de observar gente real desistindo no meio do caminho, não de uma reunião de planejamento. Se a gente tivesse investido em anúncio no primeiro mês, teria pagado para levar pessoas a um funil que ainda vazava.

Quando chegar a hora de construir, é isso que a gente faz: um time sênior que desenha o MVP pequeno de propósito, com as métricas que importam desde o primeiro dia (retenção, ativação, de onde cada usuário veio), para que a fase dos primeiros 100 gere aprendizado e não só cadastro. Você pode ver outros produtos que já colocamos em produção no portfólio de projetos da OCA.

O próximo passo, esta semana

Seu primeiro produto não precisa ser perfeito. Precisa existir e precisa de 100 pessoas usando de verdade. Se você ainda está desenhando o MVP e quer que ele nasça preparado para essa fase, com escopo enxuto e instrumentação certa, fale com a gente.

Tire seu MVP do papel com a OCA

E, independente de falar com a gente ou não, uma tarefa para fazer antes de domingo: escreva a frase de quem são os seus 100, liste 20 nomes reais e mande mensagem para cinco deles hoje. Não para vender. Para perguntar como eles resolvem o problema hoje. O que você ouvir vale mais que qualquer funcionalidade que você construiria nesta semana.

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