Métricas de MVP: como saber se o seu produto deu certo nos primeiros 90 dias (os 5 números que decidem entre continuar, ajustar ou parar)
Gabriela Dionelli · · 9 min de leitura
Você lançou o MVP. Levou meses, gastou parte das suas economias, chamou os amigos e postou no LinkedIn. Agora tem 180 cadastros, alguns comentários simpáticos e uma pergunta que não te deixa dormir: isso deu certo ou não?
Você abre o painel e vê números subindo. Mas não sabe se 180 é muito ou pouco, se a queda depois da primeira semana é normal, se vale investir mais ou se é hora de parar. Cada pessoa que você consulta dá uma opinião diferente, e ninguém te entrega um critério.
Respira. Vamos por partes. Neste artigo você sai com cinco números para acompanhar, quanto custa medir cada um (quase sempre R$0) e uma regra simples para decidir, em até 90 dias, entre continuar, ajustar ou parar.
Por que o número de cadastros não diz se o seu MVP deu certo
Cadastro mede curiosidade. Ele mostra que a sua mensagem chamou atenção, e isso tem valor. Mas não mostra se o produto resolve um problema que dói o suficiente para alguém mudar de hábito.
A pergunta certa não é essa. A pergunta certa é: quantas pessoas voltaram sem você pedir, e quantas pagariam para não perder o produto?
Existe um motivo psicológico para os cadastros enganarem. Na primeira semana, as pessoas testam por novidade. O cérebro gosta de coisa nova, e esse pico de uso some sozinho em poucos dias. O que sobra depois que a novidade passa é o seu produto de verdade.
Tem outro ponto, mais desconfortável. Se você olha os dados primeiro e decide depois, sempre encontra um motivo para continuar. Isso tem nome: viés de confirmação. Somado ao dinheiro que você já investiu (o famoso custo afundado), é a combinação que mantém MVPs vivos um ano além do que deveriam. Por isso o primeiro passo deste artigo não é medir. É decidir a regra antes de medir.
Os 5 números do MVP, em ordem de importância (e quanto custa medir)
Passo zero, R$0, 30 minutos: abra um documento e escreva três frases. “Em 90 dias, se acontecer X, eu continuo. Se acontecer Y, eu ajusto. Se acontecer Z, eu paro.” Mande para alguém de confiança. Esse documento vai te proteger de você mesmo daqui a dois meses.
1. Ativação: quantos chegam ao momento em que o produto faz sentido
Todo produto tem uma ação principal, o momento em que o usuário finalmente entende o valor. Num app de agendamento, é marcar o primeiro horário. Num marketplace, é a primeira compra ou o primeiro anúncio publicado. Ativação é o percentual de cadastrados que faz essa ação nos primeiros 7 dias.
Como ponto de partida, ativação abaixo de 20% quase sempre indica atrito no onboarding, não ideia ruim. Cada campo e cada tela antes do valor custa esforço mental, e o usuário ainda não confia em você. Na primeira dúvida, ele fecha o app. Corte telas antes de culpar a ideia.
Custo: R$0 com Google Analytics 4 ou o plano gratuito de ferramentas como PostHog e Mixpanel, se os eventos já estão no código. Se não foram implementados, conte de 8 a 20 horas de desenvolvimento, algo entre R$1.500 e R$4.000.
2. Retenção por coorte: quantos ainda usam na semana 4 e na semana 8
Este é o número mais importante da lista. Coorte é o grupo de pessoas que entrou na mesma semana. A pergunta é simples: das pessoas que entraram na semana 1, quantas ainda usaram o produto na semana 4? E na semana 8?
O que importa é o formato da curva. Toda curva cai, e isso é normal. Se ela achata em algum ponto acima de zero, existe um grupo que precisa do produto. Se ela desce até zero, nenhuma funcionalidade nova vai resolver.
Para produtos de uso semanal, como gestão ou agenda, manter de 20% a 30% na semana 8 é um sinal forte. Para produtos de uso eventual, como comprar ingresso ou contratar um serviço, meça em meses, não em semanas. O número muda com o tipo de produto; o formato da curva, não.
Custo: R$0. Uma planilha resolve até alguns milhares de usuários.
3. Pagamento: quantos colocam dinheiro (ou se comprometem a colocar)
Elogio é de graça. Pix, não. Se você já cobra, acompanhe quantos usuários ativados viram pagantes. Se ainda não cobra, teste: pré-venda, plano fundador com desconto ou pedido de cartão para liberar uma função.
Não existe um percentual universal que sirva para todo mercado, e desconfie de quem promete um. Mas existe um sinal claro: zero pagantes depois de 60 dias com usuários ativos significa que o valor percebido é baixo ou que você está falando com o público errado.
Custo: R$0 de mensalidade. Links de pagamento e Pix cobram por transação, então você só paga quando alguém paga.
4. Custo para trazer cada usuário ativo
Mesmo sem anúncio, você paga em horas. Some as horas de prospecção, mensagens, posts e grupos. Divida pelo número de usuários ativados.
Se cada usuário ativo custa 2 horas do seu tempo e paga R$29 por mês, a conta fecha devagar, mas fecha. Se custa 6 horas, você ainda não tem um canal. Tem um esforço heroico que não se repete quando você cansar.
Custo: R$0 e uma planilha honesta.
5. O teste dos 40%: quanto as pessoas sentiriam falta
Pergunte aos usuários: “Como você se sentiria se não pudesse mais usar este produto?”. As opções são: muito decepcionado, um pouco decepcionado ou indiferente. Se 40% ou mais responderem “muito decepcionado”, existe um núcleo que depende do produto. Esse teste foi popularizado por Sean Ellis e é um dos jeitos mais baratos de medir se você chegou perto do encaixe com o mercado.
Dois cuidados: pergunte só para quem usou de verdade (duas vezes ou mais), e junte pelo menos 30 respostas antes de ler o resultado.
Isso você consegue validar essa semana, sem gastar nada. Google Forms e uma mensagem no WhatsApp bastam.
Continuar, ajustar ou parar: a tabela de decisão dos 90 dias
Com os cinco números na mão, a decisão fica bem menos emocional. Use esta tabela como referência:
| O que os números mostram | O que significa | Decisão |
|---|---|---|
| Ativação baixa, mas quem ativa fica | O produto funciona, o caminho até ele não | Ajustar o onboarding, não a ideia |
| Ativação boa, retenção cai até zero | Gostam da promessa, não do uso | Rever o problema e entrevistar quem saiu |
| Retenção achata, ninguém paga | Uso existe, valor percebido é baixo | Testar preço e público antes de construir mais |
| Retenção achata, pagamento aparece e o teste dos 40% passa | Existe um núcleo real | Continuar e investir no que esse núcleo usa |
| Nenhum sinal depois de 90 dias e dois ajustes | O problema não dói o suficiente | Parar ou pivotar com o que aprendeu |
Um cronograma realista: semanas 1 e 2 para instrumentar e definir a ação principal, semanas 3 a 8 para acompanhar as coortes, semanas 9 a 12 para decidir. Cada ciclo de ajuste leva de 2 a 4 semanas.
E um lembrete importante: parar não é fracasso. Fracasso é gastar mais R$40 mil num produto que os números já tinham descartado.
Os erros que fazem você ler os números errado (e gastar dinheiro à toa)
Olhar o total acumulado em vez da coorte
Um padrão comum: a fundadora de um app de treinos comemora 1.200 cadastros em três meses. O gráfico só sobe. Quando ela separa por coorte, descobre que menos de 5% de cada grupo ainda usa o app no segundo mês. O total acumulado nunca cai, por isso ele é o gráfico mais confortável e o menos útil.
Construir funcionalidade nova quando o problema é retenção
A curva está caindo, e a reação natural é pedir chat, notificações, modo escuro, integração com outra ferramenta. Entre R$15 mil e R$30 mil depois, a curva continua igual. Construir dá sensação de progresso. Conversar com quem abandonou dá desconforto. Por isso tanta gente escolhe construir. Antes de pagar por qualquer funcionalidade, ligue para cinco pessoas que saíram e pergunte o que elas fizeram no lugar.
Ouvir quem está sendo educado
Amigos e família querem te ver feliz. Na psicologia isso se chama viés de desejabilidade social: a pessoa responde o que acha que você quer ouvir. Troque perguntas sobre o futuro (“você usaria?”) por perguntas sobre o passado (“quando foi a última vez que você teve esse problema, e o que fez?”). Comportamento passado mente bem menos que intenção futura.
Tirar conclusão de 15 pessoas
Com menos de 30 usuários ativados por coorte, percentual vira loteria. Uma pessoa a mais ou a menos muda tudo. Nesse estágio, trate os dados como entrevistas: valiosos para entender o porquê, fracos para provar uma tendência.
Quem constrói o MVP já pensando nesses números
Em algum momento, a pergunta natural vira: “e quem constrói isso comigo, já medindo o que importa desde o primeiro dia?”. É isso que a gente faz na OCA.
No Revo App, nosso próprio produto de eventos, com mais de 40 mil usuários cadastrados e mais de 300 eventos por mês, o checkout converte 90%. A gente sabe disso com precisão porque cada etapa é medida. Sem medição, esse número seria um palpite, e palpite não orienta decisão.
É o que defendemos nos MVPs que construímos: os eventos de ativação, retenção e pagamento entram no escopo da primeira versão, junto com o que importa construir. E também dizemos com franqueza o que não construir agora, porque cada funcionalidade cortada é dinheiro seu preservado para o ciclo de ajuste. Nenhum time sério consegue garantir que a sua ideia vai dar certo. O que dá para garantir é que você vai saber, com dados, se ela está dando. Você pode ver os produtos que já colocamos no ar na página de projetos da OCA.
Seu próximo passo, ainda essa semana
- Escreva a regra de decisão dos 90 dias e mande para alguém de confiança.
- Defina a ação principal do seu produto em uma frase.
- Monte a planilha de coortes: uma linha por semana de entrada, colunas para semana 1, 4 e 8.
- Envie a pergunta dos 40% para quem usou o produto duas vezes ou mais.
Seu primeiro produto não precisa ser perfeito. Precisa existir. E, depois que existe, precisa ser medido com honestidade.
Se você ainda vai construir o MVP, ou já construiu e não consegue enxergar esses números, a gente pode olhar isso junto com você.