O que investidores realmente olham em um MVP: os números que decidem a reunião (e o que ninguém pergunta)
Gabriela Dionelli · · 7 min de leitura
Seu produto está no ar. Alguns usuários, alguma tração, e uma pergunta que não sai da cabeça: já dá para procurar investidor? Aí você abre o LinkedIn, vê anúncio de rodada atrás de rodada, e bate a sensação de que o seu MVP é pequeno demais, feio demais, incompleto demais. Respira. Vamos por partes. A distância entre o seu produto e uma reunião que avança quase nunca é a quantidade de telas. É a quantidade de evidência. E evidência, diferente de funcionalidade, você consegue reunir nesta semana, sem escrever uma linha de código nova.
A pergunta certa não é se o seu MVP está bom o suficiente
Fundador de primeira viagem entra na reunião querendo mostrar o produto. Abre o app, navega tela por tela, explica o que ainda vai construir. É uma demonstração de esforço. Investidor não compra esforço, ele compra redução de risco.
A pergunta certa não é essa. A pergunta certa é: o que o seu MVP já provou que ninguém mais consegue provar sem ter construído?
Todo mundo tem opinião sobre mercado. Todo mundo consegue montar um deck com TAM de bilhões. O que quase ninguém tem é um punhado de pessoas reais usando uma coisa real e um registro honesto do comportamento delas. É por isso que um MVP tosco com 40 usuários que voltam toda semana vale mais numa conversa do que um produto lindo com 4.000 cadastros que sumiram no dia seguinte.
Muda a preparação inteira. Você para de gastar as duas semanas antes da reunião polindo telas e começa a gastar organizando o que aconteceu com quem já entrou.
Os 5 números que abrem antes de responder o seu e-mail
Não é uma lista universal, cada tese tem seus detalhes. Mas na prática, para produto digital em estágio inicial, a conversa gira em torno disso:
- Retenção por coorte. De quem entrou na semana 1, quantos ainda estavam usando na semana 4? Esse é o número. Ele responde sozinho se o problema que você resolve é real e recorrente. Retenção que estabiliza, mesmo em patamar baixo, diz que existe um grupo de gente para quem seu produto virou hábito. Retenção que vai a zero diz que você resolveu um problema que a pessoa tinha uma vez.
- O funil em números absolutos. Quantas pessoas chegaram, quantas criaram conta, quantas fizeram a ação principal, quantas pagaram. Sem porcentagem solta. Se foram 312 visitantes, 48 contas, 19 usando de verdade e 4 pagantes, escreva exatamente isso. Número pequeno e honesto passa mais credibilidade que percentual sem denominador.
- Frequência de uso. Uma vez por dia, por semana, por mês, por ano? Frequência define modelo de negócio e define quanto você vai conseguir cobrar. Produto de uso anual precisa de um ticket muito maior para fechar a conta, e isso o investidor calcula em dez segundos.
- Quanto custou trazer cada usuário. Mesmo que a resposta seja R$ 0 porque tudo veio de indicação e grupo de WhatsApp, isso é uma informação ótima. Aquisição orgânica em estágio inicial é sinal de que o produto gera conversa. Se você gastou R$ 1.800 em anúncio e trouxe 22 usuários, o número é R$ 82 por usuário. Diga isso com naturalidade.
- Velocidade de aprendizado. O que mudou entre a primeira versão e a atual, e por quê. Esse é o item que separa fundador que executa de fundador que teoriza. Três mudanças relevantes em dois meses, cada uma justificada por algo que você viu no comportamento dos usuários, valem mais do que qualquer projeção de planilha.
Repare que nenhum desses cinco exige uma linha de código nova. Todos exigem organização.
O que ninguém pergunta (e você provavelmente gastou dinheiro fazendo)
Lista igualmente útil, porque é aqui que o dinheiro de fundador iniciante costuma evaporar:
- App nativo nas duas lojas. Na fase de validação, quase sempre é gasto antecipado. Ninguém vai reprovar sua tese porque o produto roda no navegador.
- Arquitetura preparada para milhões de usuários. Escalar é problema bom, e você ainda não tem. Investidor sabe que produto que dá certo é reescrito. Ninguém investe em banco de dados bem modelado.
- Design premium de agência. Interface precisa ser clara e não constranger. Não precisa ser prêmio de design. A diferença entre decente e impecável custa caro e não move nenhum dos cinco números acima.
- Quantidade de funcionalidades. Trinta funcionalidades subutilizadas contam uma história pior que três funcionalidades usadas todo dia. Escopo grande sinaliza falta de foco, não capacidade de entrega.
- NDA antes da primeira conversa. Investidor ouve dezenas de ideias por mês e não vai assinar acordo de confidencialidade para escutar a sua. Pedir isso na abertura queima a reunião antes de começar.
- Deck de 40 slides. Doze é o suficiente. O que sustenta a conversa é o dado, não a diagramação.
Como montar essa base em uma semana, gastando R$ 0
Ordem prática, do mais rápido ao mais trabalhoso:
- Segunda: instrumente os eventos que importam. Cadastro, ação principal, retorno, pagamento. Ferramenta gratuita resolve nesse volume. Se seu produto ainda não registra nada, esse é o único trabalho técnico que vale contratar agora. Custo: algumas horas de dev.
- Terça: monte a planilha de coorte. Uma linha por semana de entrada, uma coluna por semana seguinte, quantos daquele grupo voltaram. Feio, no Google Sheets mesmo. Custo: R$ 0.
- Quarta e quinta: converse com dez pessoas. Cinco que continuam usando e cinco que sumiram. Quinze minutos cada, pergunta aberta, sem defender o produto. Quem sumiu te dá o motivo real do churn, e esse motivo costuma valer mais que a planilha inteira. Custo: R$ 0.
- Sexta: escreva uma página só. Os cinco números, o que você aprendeu nas conversas, o que vai fazer com o dinheiro nos próximos seis meses e qual número você espera mover com ele. Uma página. Isso você consegue fazer essa semana, sem gastar nada.
Se ao terminar a planilha ficar claro que a retenção despenca, ótimo. Você acabou de economizar meses. Volta para o produto antes de gastar credibilidade com investidor, porque reunião ruim você só faz uma vez com cada pessoa.
As armadilhas que queimam dinheiro nessa fase
Métrica de vaidade. Download, cadastro, seguidor e visualização são números que sempre sobem e não provam nada. Um fundador que conhecemos abriu a conversa com 6.000 cadastros. A segunda pergunta foi quantos usaram duas vezes. Eram 70. A reunião acabou ali, não pelo 70, mas por ele não saber o 70 de antemão.
Construir para agradar investidor. Adicionar funcionalidade porque alguém em um evento falou que ficaria mais interessante é o jeito mais rápido de inflar orçamento e diluir o produto. Seu produto responde a usuário, não a plateia.
Gastar 100% em desenvolvimento e 0% em distribuição. Erro clássico. O produto fica pronto e não tem ninguém para usar, então não existe dado, então não existe conversa. Reserve pelo menos um quinto do orçamento para colocar gente lá dentro.
Procurar investimento cedo demais por falta de paciência. Captação é um caminho, não é o caminho. Muita empresa boa cresce com o dinheiro do próprio cliente e chega na mesa em posição bem melhor. Nenhuma preparação garante rodada, e é justamente por isso que faz diferença ter um produto que se sustenta sem ela.
Quando chegar a hora de construir, é isso que a gente faz
Na OCA a gente vive dos dois lados dessa história. Além de desenvolver produto para cliente, operamos o nosso: o Revo, plataforma de eventos e ingressos com mais de 40 mil usuários cadastrados, 300 e poucos eventos por mês e um checkout próprio que converte em torno de 90%. Esse último número não apareceu porque a arquitetura é bonita. Apareceu porque medimos o funil passo a passo e cortamos fricção onde o dado apontava.
É esse tipo de instrumentação que a gente monta junto com quem está começando. MVP bem escopado costuma ficar entre R$ 25.000 e R$ 90.000, de 6 a 12 semanas, e o que move essa faixa é escopo, integração com pagamento e se precisa mesmo de app nas lojas ou se web resolve por agora. A gente diz com franqueza o que não construir, porque MVP que nasce grande demais atrasa exatamente a parte que interessa: ter usuário de verdade gerando dado de verdade. Dá para ver o que já colocamos em produção antes de qualquer conversa.
Se você já tem produto no ar e quer organizar os números antes de procurar investidor, ou se está no ponto de tirar a primeira versão do papel com escopo enxuto, chama para trocar ideia.
Tire seu MVP do papel com a OCA
Seu passo desta semana: abra uma planilha e monte a coorte das últimas quatro semanas. Só isso. Se você não conseguir preencher porque não tem os dados, esse é o seu próximo projeto, e ele é pequeno. Seu primeiro produto não precisa ser perfeito. Precisa existir e precisa ser medido.