CLT, PJ ou freelance dev: a matemática real que ninguém te mostra antes de decidir
Lucas Annunziato · · 7 min de leitura
Se você é dev, a dúvida CLT, PJ ou freelance dev quase sempre chega do mesmo jeito: uma proposta PJ pagando "30% a mais" que o seu salário atual, ou um projeto freelance que parece dinheiro rápido. Fim de ano é quando essas propostas aparecem, junto com a vontade de replanejar a carreira. E a decisão costuma ser tomada comparando um número bruto com outro número bruto, no guardanapo. O problema é que esses números não são comparáveis. Salário CLT é um pacote, nota PJ é faturamento de empresa e hora de freelance é receita de um negócio que você ainda não montou. Eu passei pelos três formatos, e hoje, do outro lado da mesa, contrato e repasso projetos para devs nos três. Este artigo é a planilha que eu queria ter recebido antes de decidir.
A verdade desconfortável: você está comparando coisas de natureza diferente
O bruto do CLT embute direitos que ninguém contabiliza na hora da proposta: 13º, férias remuneradas com um terço a mais, FGTS pingando todo mês, multa de 40% se te demitirem, seguro-desemprego, licença médica sem perder receita. A nota do PJ embute o oposto: impostos, contador, plano de saúde do próprio bolso e um contrato que pode acabar com 30 dias de aviso, sem multa nenhuma.
E o freelance embute algo que quase ninguém precifica: as horas que você não fatura. Prospecção, reunião de proposta, negociação, administração. Ninguém paga por elas, mas elas existem em qualquer negócio. Enquanto você comparar R$ 10.000 de salário com R$ 13.000 de nota ou com R$ 100 por hora, a conta vai sair errada. Vamos fazer a conta certa.
CLT, PJ ou freelance dev: os três cenários na ponta do lápis
Quanto vale de verdade um CLT de R$ 10.000
Pegue um salário de R$ 10.000 brutos. O 13º adiciona 8,3% ao mês. O terço de férias, mais 2,8%. O FGTS deposita 8% sobre tudo isso. Some um plano de saúde empresarial e VR ou VA, que custariam de R$ 800 a R$ 1.500 por mês se você fosse pagar sozinho. O pacote real fica entre R$ 12.500 e R$ 14.000 mensais. E tem o que não aparece em número: você tira 30 dias de férias recebendo, pode adoecer sem o caixa zerar e, se for demitido, sai com multa do FGTS e seguro-desemprego. Esse colchão os outros dois modelos não têm.
O PJ que empata com esse CLT precisa faturar uns R$ 14.000
A régua prática que eu uso: PJ empata com CLT multiplicando o bruto por algo entre 1,35 e 1,5. Para um CLT de R$ 10.000, isso dá R$ 13.500 a R$ 15.000 na nota. De onde vem a diferença: Simples Nacional (no Anexo III, com fator R bem configurado, começa em 6% do faturamento; sem planejamento você cai no Anexo V e paga 15,5%), INSS sobre o pró-labore, contador entre R$ 250 e R$ 500 por mês, plano de saúde individual, e as provisões que agora são responsabilidade sua: férias, 13º e uma reserva para o dia em que o contrato acabar com um e-mail educado e nenhuma multa. Se a proposta PJ que chegou paga menos que 1,35 vez o seu bruto atual, você não está ganhando aumento. Está trocando segurança por nada.
Freelance não é modelo de contratação, é um negócio
A conta do freelance quebra num ponto que quase todo dev ignora: horas faturáveis. Um mês tem umas 160 horas úteis, mas ninguém fatura 160. Entre prospecção, propostas, reuniões que não viram projeto e administração, um freelancer saudável fatura de 100 a 120 horas nos meses bons. E existem os meses ruins, entre um projeto e outro, em que a receita é zero.
A conta é simples: para um pacote equivalente ao CLT de R$ 10.000, você precisa de uns R$ 14.000 de faturamento mensal médio. Dividido por 100 horas faturáveis, dá R$ 140 por hora. Some imposto e uma provisão para um ou dois meses vazios por ano e a hora sênior precisa ficar entre R$ 150 e R$ 180. Quando você vê dev sênior cobrando R$ 60 por hora, não é concorrência agressiva. É alguém que fez a conta errada e ainda não percebeu.
| Modelo | Número que te mostram | O que a conta precisa incluir | Régua prática |
|---|---|---|---|
| CLT | R$ 10.000 brutos | 13º, férias com terço, FGTS, plano de saúde, VR, estabilidade de fluxo | Pacote real de R$ 12.500 a R$ 14.000 |
| PJ | R$ 13.000 na nota | Simples, contador, plano, férias e 13º por sua conta, fim de contrato sem multa | Empata com o bruto CLT vezes 1,35 a 1,5 |
| Freelance | R$ 150 por hora | Horas não faturáveis, prospecção, meses vazios, imposto | Hora = pacote desejado dividido por 100 horas, com margem |
As armadilhas que quebram dev nessa transição
Converter salário em hora. R$ 10.000 divididos por 160 horas dão R$ 62. Cobrar isso no freelance é vender o pacote CLT sem nenhum direito do CLT. É o erro mais comum e o mais caro.
PJ de cliente único. Se 100% da sua nota vem de uma empresa, com horário fixo e chefe direto, você não é PJ. É CLT sem direitos. Quando esse cliente cortar custos, você descobre o preço disso de uma vez só.
Escopo aberto em preço fechado. "Só mais um ajustezinho" repetido por três meses transforma um projeto de R$ 20.000 em prejuízo. Escopo por escrito, e mudança vira aditivo com valor novo.
Não provisionar. O boleto do Simples vence todo mês, dezembro chega sem 13º e as férias que você não provisionou viram férias que você não tira. Separe os percentuais no dia em que o pagamento cai, não no que sobrar no fim do mês.
Trabalhar sem contrato e sem entrada. Sem assinatura e sem sinal, você não tem cliente, tem promessa. Aqui nenhum projeto começa sem os dois, e recomendo o mesmo para qualquer dev.
Como decidir entre CLT, PJ ou freelance dev sem se queimar
A decisão não é ideológica, é de estágio. Três perguntas resolvem a maioria dos casos:
- Você tem reserva? Com menos de seis meses de custo de vida guardados, qualquer modelo sem estabilidade vira roleta. Construa a reserva antes de sair.
- A proposta PJ passa da régua? Menos de 1,35 vez o seu bruto CLT, negocie ou recuse. A conta acima é o seu argumento na mesa.
- Você tem pipeline? Freelance sem fila de clientes é desemprego com CNPJ. Se você nunca fechou um projeto por fora, comece a construir demanda enquanto ainda tem salário caindo.
A terceira pergunta é onde a maioria trava. Se você já entrega bem, o seu problema não é técnico, é distribuição. E distribuição demora: a OCA levou anos publicando conteúdo, ranqueando no Google e aparecendo nas respostas das IAs até os leads chegarem sozinhos. Isso não é teoria, é literalmente como a OCA cresceu.
O caminho do meio: receber projeto pronto em vez de caçar cliente
Vou te falar como funciona do lado de quem recebe os leads: hoje chegam na OCA dezenas de contatos por dia de gente querendo aplicativo, sistema web ou automação com IA. É mais demanda do que o nosso time consegue atender. A resposta foi montar uma rede de parceiros: devs sêniores e times pequenos que recebem projetos já qualificados, com escopo fechado, contrato assinado e cliente validado. O parceiro entra na parte boa do jogo, que é construir, sem pagar o custo mais alto do freelance, que é vender.
Sendo honesto sobre os dois lados: a OCA espera senioridade técnica, comunicação sem sumiço e entrega no padrão do nosso portfólio de projetos. Em troca, o parceiro recebe projeto com escopo e valores definidos, sem gastar uma hora prospectando. Não é promessa de volume nem de renda, a fila varia com a demanda. Mas é pipeline real, vindo da mesma máquina de SEO que te trouxe até este artigo.
O próximo passo concreto
Independente da decisão, faça isto esta semana: abra uma planilha com três colunas. Na primeira, o seu pacote CLT completo, com 13º, férias, FGTS e benefícios somados. Na segunda, esse valor multiplicado por 1,4, que é o piso de uma proposta PJ decente. Na terceira, esse mesmo valor dividido por 100 horas, que é o mínimo da sua hora como freelancer. Guarde esses três números para começar 2026 sabendo exatamente o que aceitar. Eles transformam qualquer proposta futura de "parece bom" em uma decisão de dez segundos.
E se você já entrega bem e prefere receber projetos qualificados em vez de caçar cliente do zero: Entre para a rede de parceiros da OCA.