CLT, PJ ou freelance: a matemática real que todo dev precisa fazer antes de decidir
Lucas Annunziato · · 7 min de leitura
Você abre o LinkedIn e vê uma vaga PJ pagando R$ 15 mil. Seu salário CLT é R$ 10 mil. Parece 50% de aumento. Aí um amigo freelancer comenta que cobra R$ 150 por hora e você multiplica por 160 horas: R$ 24 mil por mês. Parece que você está deixando dinheiro na mesa há anos. Só que essas três contas estão erradas do mesmo jeito: comparam números que não são comparáveis. Salário CLT não é faturamento PJ, e faturamento PJ não é receita de freelance. Antes de pedir demissão ou recusar uma proposta, vale fazer a conta inteira, com os custos que ninguém coloca no anúncio da vaga.
Vou te mostrar a matemática que eu fiz antes de sair do CLT, com os pesos reais de cada modelo. Não é teoria, é a conta que eu refaço até hoje quando avalio se um projeto vale a pena.
Quanto vale de verdade um salário CLT de dev
O erro clássico é olhar só o salário bruto. Um CLT de R$ 10 mil custa para a empresa, e vale para você, bem mais do que isso. A conta:
- 13º salário: +8,33% ao mês (R$ 833)
- Férias + 1/3: +11,11% ao mês (R$ 1.111)
- FGTS: 8% depositado todo mês (R$ 800), mais a multa de 40% se você for demitido
- Plano de saúde: um plano equivalente para você (e família, se for o caso) custa de R$ 600 a R$ 2.500 por mês no mercado
- Vale refeição e outros benefícios: R$ 600 a R$ 1.200 típicos
- Estabilidade de fluxo: difícil de precificar, mas real. Salário cai todo dia 5, projeto freelance não.
Somando só o que dá para colocar em planilha, aquele CLT de R$ 10 mil vale entre R$ 13.500 e R$ 16.000 por mês em pacote total. A regra de bolso que uso: multiplique o salário CLT por 1,4. Esse é o número que qualquer proposta PJ precisa bater só para empatar.
A conta do PJ: o que sobra depois do imposto e do risco
PJ fixo (aquela vaga full-time faturada via CNPJ) é o modelo mais fácil de comparar. Pegue o valor da nota e desconte:
- Impostos no Simples Nacional: com Fator R (pró-labore de pelo menos 28% do faturamento), você fica no Anexo III, começando em 6%. Sem Fator R, Anexo V, começando em 15,5%. Essa diferença sozinha muda a decisão.
- INSS sobre o pró-labore: 11%, mais IRPF conforme a faixa
- Contador: R$ 200 a R$ 500 por mês
- Plano de saúde, previdência, férias: agora são problema seu. Se quiser tirar 30 dias por ano parado, precisa provisionar 1/12 do faturamento todo mês.
Na prática, uma proposta PJ de R$ 15 mil, bem estruturada no Anexo III, deixa algo como R$ 12.500 a R$ 13.200 líquidos, antes de você provisionar férias e 13º por conta própria. Descontando essas provisões, você chega perto de R$ 11 mil de renda comparável. Ou seja: R$ 15 mil PJ contra R$ 10 mil CLT não é 50% de aumento. É algo entre 10% e 15%, trocando estabilidade por flexibilidade. Pode valer a pena, mas é uma decisão diferente da que o número bruto sugere.
A conta é simples: PJ precisa pagar pelo menos 1,4x o seu CLT para empatar, e 1,6x para valer o risco.
Freelance: a variável que quase todo mundo esquece são as horas faturáveis
Aqui é onde a matemática muda de natureza. No CLT e no PJ fixo, você vende 100% do seu mês para um comprador. No freelance, você vira uma operação, e operação tem custo de aquisição.
Um mês tem cerca de 168 horas úteis. Um freelancer saudável não fatura 168. Ele fatura entre 50% e 65% delas. O resto vai para:
- Prospecção e follow-up de propostas (que muitas vezes não fecham)
- Reuniões de descoberta e orçamento
- Administrativo: nota fiscal, contrato, cobrança, contador
- Buracos entre um projeto e outro, que ninguém paga
Então aquele amigo que cobra R$ 150/hora não fatura R$ 24 mil. Em um mês bom, ele fatura R$ 15 mil a R$ 18 mil. Em um mês de vale entre projetos, fatura R$ 6 mil. Do lado de quem recebe leads todo dia, vejo isso com clareza: o gargalo do freelancer competente quase nunca é a taxa horária, é a taxa de ocupação. Se você já entrega bem, o seu problema não é técnico, é distribuição.
A fórmula honesta para precificar freelance a partir do seu CLT atual:
- Pegue o valor do seu pacote CLT (salário x 1,4)
- Adicione 20% a 30% de prêmio de risco e provisão de vacância
- Divida por 85 a 100 horas faturáveis por mês, não por 160
Exemplo com CLT de R$ 10 mil: pacote de R$ 14 mil, mais 25% de risco = R$ 17.500. Dividido por 90 horas faturáveis: R$ 195 por hora. Se você está cobrando R$ 80 porque "é o que o mercado paga", você está financiando o cliente com o seu próprio padrão de vida.
Quando cada modelo ganha: os três perfis
Depois de anos vendo devs migrarem entre modelos (inclusive dentro da rede de parceiros da OCA), o padrão é claro:
Fique no CLT se
- Você ainda não tem 6 meses de reserva de emergência
- Seu pipeline de clientes hoje é zero e você não tem presença online nenhuma
- Você está em fase de vida em que previsibilidade vale mais que teto (financiamento, filho pequeno)
PJ fixo faz sentido se
- A proposta bate pelo menos 1,4x seu CLT, idealmente 1,6x
- Você quer testar a vida de CNPJ com risco controlado antes do freelance puro
- O contrato permite atender outros clientes, o que abre caminho para construir carteira em paralelo
Freelance puro compensa se
- Você tem reserva para 6 meses e estômago para meses irregulares
- Você já tem pelo menos 2 ou 3 fontes de projeto que não dependem de plataforma de leilão de preço
- Sua hora, calculada pela fórmula acima, é aceita pelo mercado que você acessa
As armadilhas que quebram a conta
Comparar bruto com bruto. É o erro que abre este artigo. Sempre converta tudo para "renda líquida comparável com provisões", senão você troca seis por meia dúzia achando que dobrou.
Ignorar o Fator R. Devs que abrem CNPJ sem orientação caem no Anexo V e pagam mais que o dobro de imposto sem necessidade. Um contador que entende de TI se paga no primeiro mês.
Precificar freelance por 160 horas. Você não vai faturar 160 horas. Ninguém fatura. Quem precifica assim quebra em silêncio: trabalha muito, ganha pouco e conclui que "freelance não funciona", quando o que não funcionou foi a planilha.
Sair do CLT para depender de uma única fonte de projetos. Um cliente só é um CLT sem os direitos. Diversificar fonte de demanda importa mais que a stack que você domina.
O caminho do meio: freelance com demanda repassada
Existe um quarto modelo que resolve exatamente a variável mais frágil da conta: a taxa de ocupação. Na OCA, a gente aparece no Google e nas IAs para buscas de desenvolvimento de software no Brasil, e isso traz dezenas de leads de clientes por dia, mais do que o nosso time consegue atender. A nossa resposta foi montar uma rede de parceiros: devs seniores e times pequenos que recebem projetos já qualificados, com escopo fechado e cliente validado.
Para o dev, isso muda a matemática do freelance no ponto que mais dói: as horas não faturáveis de prospecção caem perto de zero, e a taxa de ocupação sobe. O que a gente espera do parceiro é o que qualquer cliente sério espera: entrega no prazo, comunicação clara e código que não envergonha em code review. O que o parceiro ganha é pipeline sem precisar virar vendedor. Você pode ver o tipo de projeto que a gente constrói no portfólio da OCA.
Entre para a rede de parceiros da OCA
E independente de qualquer rede: abra uma planilha esta semana e faça a sua conta com os números reais. Pacote CLT x 1,4, imposto no seu anexo do Simples, horas faturáveis realistas. Decidir entre CLT, PJ e freelance com a matemática completa na mão é a diferença entre uma mudança de carreira e um salto no escuro.