Quanto custa manter um software sob medida: o custo mensal que ninguém coloca no orçamento (e o que acontece quando você corta)
Rafael Oliveira · · 8 min de leitura
O sistema foi entregue há pouco mais de um ano. Funciona. A equipe usa todo dia, o financeiro fecha o mês por ele, ninguém reclama. Então, numa terça-feira, o boleto para de ser gerado. Ou o login trava depois de uma atualização do celular. Ou chega um e-mail do provedor de pagamentos avisando que a versão da API que o sistema usa será desligada em 60 dias. Você procura quem construiu e descobre que o desenvolvedor mudou de projeto, o contrato acabou na entrega e o orçamento de tecnologia deste ano é zero, porque “o software já está pronto”.
O problema aqui não foi o código. Foi a conta que ninguém fez na hora de contratar.
Por que software sob medida nunca está “pronto”
A comparação mais comum é com uma obra: paga, entrega, pronto. Software não funciona assim. Um sistema sob medida depende de dezenas de coisas que você não controla e que mudam sem pedir licença:
- Sistemas operacionais e navegadores. iOS e Android lançam versões novas todo ano. Chrome atualiza a cada poucas semanas. Uma tela que funcionava pode quebrar sem que uma linha do seu código tenha mudado.
- Lojas de aplicativos. Google Play e App Store exigem atualização periódica das versões mínimas suportadas. Aplicativo que não acompanha perde visibilidade na busca ou é removido.
- APIs de terceiros. Gateway de pagamento, emissor de nota fiscal, WhatsApp, Google Maps, Correios. Todos mudam versão, desligam endpoints antigos e alteram regras de autenticação.
- Bibliotecas e dependências. Um sistema web médio usa centenas de pacotes de código aberto. Falhas de segurança são descobertas e corrigidas o tempo todo. Quem não atualiza acumula vulnerabilidade conhecida e documentada publicamente.
- Infraestrutura. Certificados SSL vencem. Domínios vencem. Bancos de dados crescem e ficam lentos. Provedores de nuvem aposentam versões de banco e de runtime.
- Legislação. LGPD, regras fiscais, exigências dos meios de pagamento. Mudam, e o sistema precisa acompanhar.
Nada disso quebra sozinho. O sistema fica parado enquanto o mundo em volta dele se move. Manutenção é o trabalho de manter os dois alinhados.
O que entra na conta de manutenção de software
Quando alguém pergunta “quanto custa manter”, geralmente está pensando só em hospedagem. Hospedagem é a menor parte. A conta completa tem cinco linhas:
| Item | O que cobre | Faixa típica (sistema pequeno a médio) |
|---|---|---|
| Infraestrutura | Servidores, banco de dados, armazenamento, CDN, backups | R$ 200 a R$ 3.000 por mês |
| Serviços de terceiros | Envio de e-mail e SMS, monitoramento, mapas, autenticação, taxas fixas de gateway | R$ 100 a R$ 1.500 por mês |
| Manutenção corretiva | Bugs que aparecem em produção | 2 a 6 horas por mês |
| Manutenção adaptativa | Atualização de dependências, lojas, APIs externas e versões de sistema operacional | 4 a 12 horas por mês |
| Evolução | Funcionalidades novas, ajustes de processo, relatórios | Depende do apetite do negócio |
As duas primeiras linhas são custo direto e previsível. As três últimas são horas de engenharia, e é aí que a maioria dos orçamentos falha: ninguém reserva hora para manutenção adaptativa porque ela não gera nada visível. Só evita que algo pare.
A regra de bolso que funciona
Não existe resposta única, mas existe conta certa. Para um sistema em uso ativo, reserve entre 15% e 25% do valor de desenvolvimento por ano para manter e evoluir, já incluindo infraestrutura. Em números:
- Sistema que custou R$ 80 mil: R$ 12 mil a R$ 20 mil por ano, ou R$ 1.000 a R$ 1.700 por mês.
- Sistema que custou R$ 150 mil: R$ 22 mil a R$ 37 mil por ano, ou R$ 1.900 a R$ 3.100 por mês.
- Sistema que custou R$ 300 mil: R$ 45 mil a R$ 75 mil por ano, ou R$ 3.700 a R$ 6.200 por mês.
O que move o número para cima:
- Aplicativo mobile. Duas plataformas, duas lojas, dois calendários de atualização. Puxa para o topo da faixa.
- Quantidade de integrações. Cada API externa é uma fonte independente de mudança. Cinco integrações dão mais trabalho que uma.
- Domínio regulado. Saúde, financeiro, fiscal. Mudança de regra vira mudança de código com prazo.
- Volume de uso. Mil usuários e cem mil usuários não custam a mesma infraestrutura nem geram a mesma quantidade de casos de borda.
O que move para baixo: sistema interno, sem app, poucas integrações, base de usuários estável. Nesse caso, 10% ao ano pode bastar. Se o fornecedor promete manutenção por muito menos que isso, ou muito acima, pergunte o que está e o que não está incluso.
Os modelos de contrato e o barato que sai caro
Existem quatro formas de pagar por manutenção, e a escolha muda tanto o custo quanto o risco.
Sob demanda (chamou, pagou)
Você aciona quando algo quebra e paga por hora. Parece o mais barato, porque em mês tranquilo custa zero. O barato que sai caro aqui é o seguinte: ninguém acompanha o sistema entre um chamado e outro. Dependências não são atualizadas, alerta de segurança não é lido, e o problema só aparece quando já virou incidente. Aí a hora é de urgência, o desenvolvedor precisa reaprender o código, e o conserto custa de três a cinco vezes o que a prevenção teria custado.
Banco de horas mensal
Um pacote fixo, tipicamente de 8 a 20 horas por mês, com um time que conhece o sistema e o acompanha de forma contínua. Horas não usadas em correção vão para evolução. É o modelo que faz mais sentido para a maioria das empresas pequenas e médias, porque combina previsibilidade de custo com alguém de fato olhando o sistema.
Contrato com SLA
Define tempo de resposta e de resolução por gravidade, com monitoramento ativo e plantão. Custa mais e faz sentido quando sistema parado significa operação parada: checkout, emissão fiscal, atendimento. Se o seu sistema pode ficar fora por um dia sem prejuízo relevante, você não precisa disso ainda.
Time interno
Um desenvolvedor pleno em regime CLT custa entre R$ 12 mil e R$ 18 mil por mês com encargos. Só compensa quando existe volume de evolução para ocupar essa pessoa. Para manter um sistema estável, é caro e ainda concentra todo o conhecimento em uma única cabeça.
O que acontece quando você corta a manutenção
Ninguém decide abandonar um sistema. O que acontece é o orçamento não ser renovado, e a degradação vem em etapas previsíveis:
- Meses 1 a 3. Nada muda. Essa fase é a que convence todo mundo de que a decisão foi certa.
- Meses 3 a 6. Alertas de segurança se acumulam nas dependências. Uma atualização de iOS ou Android muda o comportamento de uma tela. Usuários reclamam, ninguém corrige.
- Meses 6 a 9. A loja exige nova versão mínima e o app deixa de ser distribuído. Um certificado vence. O gateway de pagamento avisa que vai desligar a versão antiga da API.
- Meses 9 a 12. Algo crítico para: pagamento, login, emissão de nota. Agora é urgência. O time original não está mais disponível, e quem entra precisa primeiro entender o código para depois consertar.
Nesse ponto, o custo de retomar costuma ficar entre 30% e 50% do valor original do sistema, só para deixá-lo no estado em que já estava. Comparado com os 15% a 25% por ano de manutenção regular, a matemática fecha sozinha.
Antes de assinar qualquer contrato, pergunta isso:
Essas perguntas separam o fornecedor que pensa no ano dois do fornecedor que pensa só na entrega. Leve para a reunião.
- O que a garantia cobre e por quanto tempo? Garantia é correção de defeito de fabricação, não manutenção. Peça o prazo e a definição de “defeito” por escrito.
- Qual é o custo estimado de infraestrutura no mês 1 e no mês 24? Quem projetou a arquitetura sabe responder. Quem não sabe vai te surpreender na fatura da nuvem.
- Quem responde se o sistema cair sábado às 22h, e em quanto tempo? A resposta pode ser “ninguém, segunda-feira a gente olha”. Tudo bem, desde que você saiba disso antes.
- Como e com que frequência as dependências e as versões de loja são atualizadas? Se a resposta for “quando precisar”, não existe manutenção adaptativa no plano.
- Código, servidores, domínio e contas de serviço ficam no meu nome? Se o fornecedor sumir, você precisa conseguir passar o sistema para outra equipe sem pedir favor.
- Existe monitoramento? Quem recebe o alerta? Descobrir que o sistema caiu pelo cliente reclamando é sintoma de que ninguém está olhando.
- Qual é o modelo pós-entrega e quanto custa? Peça o número na proposta inicial, não depois. Fornecedor que só orça o desenvolvimento está vendendo metade do projeto.
Como a gente paga essa conta todo mês
Na OCA, isso não é recomendação de consultoria. É a nossa própria fatura. O Revo App, nossa plataforma de eventos, tem mais de 40 mil usuários e roda mais de 300 eventos por mês em produção. Isso significa acompanhar atualização de iOS e Android, exigência de versão mínima das lojas, mudança de API do gateway de pagamento e crescimento do banco de dados, todo mês, sem parar um checkout que converte a 90%. O sistema de gestão para imobiliárias que construímos e operamos segue a mesma rotina.
Por isso, quando entregamos um sistema sob medida para uma empresa, a proposta já vem com a linha de manutenção: infraestrutura estimada, banco de horas mensal e o que está ou não coberto. Esse é o tipo de projeto que a gente constrói e sustenta, e você pode ver outros exemplos em produção no portfólio da OCA.
O próximo passo
Se você já tem um sistema rodando, faça isto hoje, sem custo: levante quanto gastou com ele nos últimos 12 meses, separado em infraestrutura, serviços de terceiros e horas de desenvolvimento. Compare com a faixa de 15% a 25% do valor original. Se estiver muito abaixo, alguma das linhas da tabela acima não está sendo feita, e é questão de tempo até a fatura aparecer.
Se você está contratando agora, leve as sete perguntas para a próxima reunião de proposta e exija o número de manutenção junto com o de desenvolvimento.
E se quiser conversar sobre um sistema novo ou sobre retomar um que ficou sem manutenção, a gente faz essa conta junto com você, sem compromisso.