Quanto cobrar por hora como dev freelancer no Brasil: a conta honesta em 2026
Lucas Annunziato · · 7 min de leitura
Se você está pesquisando quanto cobrar como dev freelancer, provavelmente está em um destes dois momentos: ou vai fechar o primeiro projeto e não tem ideia de que número falar, ou já está fechando projetos e sente que está trabalhando muito para sobrar pouco. Nos dois casos o problema é o mesmo. A maioria dos devs chuta o valor da hora com base no que ganhava na CLT, no que viu num grupo de Telegram, ou pior, no que acha que o cliente aceita pagar. Nenhuma dessas três referências é uma conta. São palpites. E palpite em precificação sai caro, porque o erro se repete em cada hora trabalhada, todos os meses.
Eu passei por isso antes de fundar a OCA e vejo isso hoje do outro lado, avaliando devs para a nossa rede de parceiros. Então vou te mostrar a conta que eu gostaria que alguém tivesse me mostrado: sem promessa, sem número mágico, só matemática.
A verdade desconfortável: sua hora CLT não é referência para nada
Um dev CLT que recebe R$ 8.000 brutos não custa R$ 8.000 para a empresa. Custa algo entre R$ 12.000 e R$ 14.000 quando você soma encargos, férias, 13º, benefícios e infraestrutura. E esse dev não vende 160 horas por mês, porque a empresa absorve reunião, onboarding, dia parado e código que foi jogado fora.
Quando você vira freelancer, tudo isso vira problema seu. Você é a empresa inteira: comercial, financeiro, suporte e RH de uma pessoa só. Se a sua hora freelancer for igual à sua hora CLT dividida por 160, você deu um pay cut em si mesmo e ainda assumiu todo o risco. A conta é simples, mas ela precisa incluir tudo o que a CLT escondia de você.
Quanto cobrar como dev freelancer: a fórmula em 4 passos
A hora justa sai de quatro variáveis. Nenhuma delas é opcional.
1. Quanto você precisa que sobre no fim do mês
Não é o seu salário antigo. É o número que paga sua vida com folga: aluguel, contas, comida, lazer e reserva. Seja honesto aqui, porque tudo que vem depois multiplica em cima desse valor. Subestimar nesta etapa é o começo do burnout com sorriso no rosto.
2. Custos de operar como PJ
Abrir CNPJ é barato. Manter uma operação PJ, não tanto:
- Contador: R$ 200 a R$ 500 por mês para PJ de serviços.
- Impostos: no Simples Nacional (Anexo III, com fator R atendido via pró-labore), algo entre 6% e 11% do faturamento na faixa típica de um freelancer. Sem fator R, pode ir para o Anexo V e passar de 15%.
- INSS sobre pró-labore: 11% do valor que você se paga oficialmente.
- Plano de saúde: R$ 400 a R$ 900 individual, dependendo de idade e região.
- Ferramentas e infraestrutura: IDE, serviços de nuvem para portfólio, licenças, um fundo para trocar a máquina a cada 3 ou 4 anos. Reserve R$ 200 a R$ 400 por mês.
3. Horas não faturáveis: o item que todo mundo esquece
Aqui é onde a maioria erra feio. Você não vende 160 horas por mês. Uma parte relevante do seu mês vai para atividades que nenhum cliente paga:
- Prospecção e propostas (inclusive as que você perde);
- Reuniões de alinhamento que estouram o combinado;
- Administração: nota fiscal, contrato, cobrança de cliente atrasado;
- Estudo, porque a stack de hoje não é a de daqui a dois anos;
- Buracos entre projetos, que existem mesmo para quem é bom.
Na prática, um freelancer saudável fatura entre 60% e 70% das horas. Quem assume 100% de ocupação na planilha está se pagando por um mês que não existe.
4. Provisão para férias, 13º e imprevistos
Ninguém te paga férias agora. Se você quer tirar 30 dias por ano e ter algo parecido com um 13º, precisa embutir isso no preço. Um multiplicador de 1,2 sobre o custo mensal resolve: você fatura 12 meses "e um quinto" para viver 12 meses com pausa e colchão.
Quanto cobrar dev freelancer: exemplo completo em reais
Vamos montar o caso de um dev pleno/sênior que quer viver bem em uma capital brasileira.
| Renda líquida desejada | R$ 10.000/mês |
| Contador | R$ 300/mês |
| Plano de saúde | R$ 700/mês |
| Ferramentas e reserva de equipamento | R$ 400/mês |
| Subtotal (líquido + custos fixos) | R$ 11.400/mês |
| Provisão férias/13º/imprevistos (x1,2) | R$ 13.680/mês |
| Impostos (~8% no Simples, grossing up) | R$ 13.680 / 0,92 = R$ 14.870/mês |
Esse é o faturamento necessário. Agora as horas: 160 horas nominais no mês, com 35% indo para trabalho não faturável, sobram cerca de 100 horas vendáveis.
R$ 14.870 ÷ 100 horas = R$ 148,70 por hora. Arredonde para R$ 150/h.
Compare com o que muito dev cobra: R$ 60 ou R$ 70 por hora, "porque na CLT dava mais ou menos isso". Refazendo a conta ao contrário, R$ 60/h em 100 horas faturáveis rende R$ 6.000 brutos. Tira imposto, contador, saúde e ferramentas, e sobra algo perto de R$ 4.100, sem férias, sem 13º, sem margem para um mês fraco. Esse dev não está barato. Está subsidiando o cliente com o próprio futuro.
Obviamente os números mudam com o seu contexto: custo de vida em cidade menor, senioridade, nicho (mobile e IA pagam acima da média), cliente direto versus intermediado. Mas a estrutura da conta não muda. Preencha com os seus valores e o número que sair é o seu piso, não a sua meta.
Precificar por desespero: a armadilha que quebra freelancer bom
O erro mais comum que eu vejo não é errar a planilha. É ter a planilha certa e ignorá-la quando o caixa aperta. Funciona assim: o mês está fraco, aparece um projeto, o cliente diz que "o orçamento é apertado", e você aceita R$ 70/h "só dessa vez". Só que:
- Preço baixo atrai projeto ruim. Cliente que espreme hora é o mesmo que espreme escopo, atrasa pagamento e some na entrega.
- "Só dessa vez" vira teto. Esse cliente te indica para outro igual, citando o preço. Você constrói pipeline na faixa errada.
- Projeto barato ocupa a agenda que deveria estar livre para o projeto certo. O custo real não é a hora mal paga, é a hora boa que você não pôde vender.
A defesa contra o desespero não é coragem, é caixa. Antes de sair da CLT ou de depender só de freela, monte reserva para 4 a 6 meses. Quem negocia sem medo de não pagar o aluguel negocia outro preço. Isso não é teoria, é literalmente como a OCA cresceu: dizendo não para projeto que não fechava a conta.
O risco escondido: precificar escopo, não hora
Tem um detalhe que a conta da hora não resolve sozinho: na maioria dos projetos você não vende hora, vende entrega. E aí a variável mais perigosa não é o valor da hora, é a estimativa de quantas horas o projeto realmente leva. Escopo mal definido é o jeito mais rápido de transformar R$ 150/h teóricos em R$ 50/h reais, porque as horas extras de retrabalho e "só mais um ajuste" saem do seu bolso.
Vou te falar como funciona do lado de quem recebe os leads: na OCA chegam dezenas de pedidos de projeto por dia, mais do que o nosso time consegue atender. Por isso montamos uma rede de parceiros, devs seniores e times pequenos que recebem projetos que a gente valida, escopa e repassa. E aqui está a conexão com este artigo: os projetos repassados já chegam com escopo fechado e faixa de valor definida. A parte mais arriscada da precificação, que é estimar no escuro e negociar com cliente que não sabe o que quer, já foi feita antes de chegar em você. O que a gente espera do parceiro é o que você provavelmente já tem: entrega sênior, comunicação decente e compromisso com prazo. Se você já entrega bem, o seu problema não é técnico, é distribuição.
Se fizer sentido para você, Entre para a rede de parceiros da OCA e me conta sua stack e o tipo de projeto que você quer receber. Sem promessa de volume, com transparência sobre como o repasse funciona.
O que fazer esta semana, independente de qualquer coisa
Abra uma planilha e rode a fórmula deste artigo com os seus números reais: renda desejada, custos PJ, 60-70% de horas faturáveis, multiplicador de 1,2 e imposto por cima. O número que sair é o seu piso por hora. Anote em algum lugar visível e use como régua na próxima proposta. Se o projeto não fecha a conta, a resposta não é baixar o preço. É melhorar a distribuição, e sobre isso já escrevi em outros posts do blog, incluindo como a OCA construiu presença que traz cliente todo dia.
Cobrar certo não é ganância. É a única forma de continuar freelancer daqui a dois anos.