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MVP e Startups

Primeiros usuários do MVP: como conseguir as 100 primeiras pessoas sem verba de marketing

Gabriela Dionelli · · 6 min de leitura

man standing in front of group of men

Você passou meses planejando. Cortou escopo, escolheu a tecnologia, acompanhou o desenvolvimento. O MVP está no ar. E aí vem o silêncio: três cadastros na primeira semana, dois deles de amigos seus. Ninguém te avisou que lançar o produto era a parte fácil.

Respira. Vamos por partes. Esse silêncio não significa que sua ideia é ruim. Significa que você tratou o lançamento como linha de chegada, quando ele é a largada. A boa notícia: conseguir os primeiros 100 usuários não exige verba de marketing. Exige trabalho manual, desconfortável e que não escala. E é exatamente por isso que a maioria dos fundadores pula essa etapa.

Por que ninguém apareceu (e por que isso era esperado)

Existe uma crença silenciosa em quem lança o primeiro produto: a de que qualidade atrai usuários sozinha. Não atrai. As pessoas não sabem que seu produto existe, e mesmo quando sabem, mudar de comportamento custa energia. Do ponto de vista de psicologia, todo novo produto pede que o usuário abandone um hábito que já funciona, mesmo que mal. Planilha bagunçada, grupo de WhatsApp, caderninho. Funciona o suficiente para a pessoa não procurar alternativa.

Isso muda a pergunta. A pergunta certa não é "como divulgo meu produto?". A pergunta certa é: quem está sentindo essa dor com intensidade suficiente para testar algo novo esta semana, e onde essa pessoa está agora?

A mudança de mentalidade: os primeiros 100 vêm um a um

Paul Graham resumiu isso em uma frase que virou mantra em startup: faça coisas que não escalam. Nos primeiros meses, você não é um negócio digital. Você é uma pessoa convencendo outra pessoa, uma de cada vez.

Isso incomoda porque parece pequeno demais. Fundador de primeira viagem quer anúncio, assessoria, lançamento com estardalhaço. Mas anúncio para um produto sem validação é queimar dinheiro para descobrir mais rápido que algo está errado, sem saber o quê. Conversa individual te dá o motivo do não. Anúncio só te dá o não.

No Revo, nossa plataforma de eventos que hoje tem mais de 40 mil usuários, os primeiros usuários não vieram de tráfego pago. Vieram de conversa direta com produtores de eventos e presença nos lugares onde o público já estava. O produto que hoje processa mais de 300 eventos por mês começou com abordagem manual, evento a evento.

O passo a passo para os primeiros 100 usuários

1. Liste 50 pessoas com nome e sobrenome (custo: R$ 0)

Não "meu público-alvo são mulheres de 25 a 40 anos". Isso é persona de slide. Abra uma planilha e liste 50 pessoas reais que têm o problema que seu produto resolve: contatos do LinkedIn, conhecidos de conhecidos, membros de grupos de Facebook e WhatsApp do nicho, gente que comenta sobre essa dor em fóruns. Se você não consegue listar 50 pessoas com esse problema, esse é um sinal importante sobre o tamanho da dor. Melhor descobrir agora.

2. Mande mensagem individual, sem copiar e colar (custo: R$ 0)

Mensagem em massa tem cheiro de spam e as pessoas percebem em dois segundos. Escreva uma a uma, citando o contexto da pessoa: "vi que você organiza os pedidos da loja por WhatsApp, montei uma ferramenta pra isso e queria sua opinião sincera antes de abrir pra todo mundo". Repare no enquadramento: você não está vendendo, está pedindo opinião. Pedir opinião ativa reciprocidade e tira a defesa que todo mundo levanta contra vendedor.

3. Vá onde a dor já é discutida (custo: R$ 0)

Grupos de WhatsApp e Telegram do setor, comunidades no Facebook, subreddits, eventos presenciais do nicho. A regra: contribua antes de divulgar. Responda dúvidas por duas semanas, vire alguém conhecido no grupo, e só então mencione o produto quando a pergunta certa aparecer. Divulgação de estranho é ignorada. Recomendação de membro ativo é clicada.

4. Faça onboarding na mão, um por um (custo: R$ 0, só tempo)

Chame cada novo usuário para uma call de 15 minutos ou acompanhe pelo WhatsApp enquanto ele usa o produto pela primeira vez. Parece perda de tempo. É a maior fonte de aprendizado que você vai ter no ano. Você vai ver, ao vivo, onde a pessoa trava, o que ela não entende, o que ela ignora. Nenhum dashboard de analytics mostra a cara de confusão de um usuário no terceiro clique.

5. Feche o ciclo com quem sumiu (custo: R$ 0)

Usuário que cadastrou e nunca voltou vale ouro. Mande mensagem pessoal: "vi que você testou e não voltou, pode me falar o que faltou? Sem problema nenhum, quero entender". As respostas doem e valem mais que qualquer pesquisa de mercado. Quem some não está te rejeitando, está te dando o mapa do que consertar.

As armadilhas que queimam dinheiro nessa fase

  • Tráfego pago antes da retenção. Se de cada 10 usuários que entram, 9 somem na primeira semana, anúncio só acelera o vazamento. Primeiro conserte o balde, depois abra a torneira. Anúncio faz sentido quando você já sabe que quem entra, fica.
  • Assessoria de imprensa cedo demais. Matéria em portal gera um pico de curiosos e depois silêncio. Curioso não é usuário. Guarde esse cartucho para quando o produto segurar quem chega.
  • Confundir elogio com validação. "Que legal, adorei a ideia" é gentileza, não validação. Validação é a pessoa usar de novo sem você pedir, ou indicar para alguém. Meça retorno e indicação, não elogio.
  • Esconder o produto até ele ficar "apresentável". Vergonha da primeira versão trava mais lançamento que bug. Seu primeiro produto não precisa ser perfeito. Precisa existir, e precisa estar na frente de gente de verdade.

Quanto tempo isso leva e o que esperar

Com dedicação real, algo entre 4 e 10 horas por semana de abordagem e conversa, é razoável chegar aos primeiros 100 usuários em 6 a 12 semanas. O número varia com o nicho: produto B2B de dor aguda anda mais rápido no um a um; produto de consumo depende mais de comunidade e indicação.

Mais importante que o número é o que você aprende no caminho. Ao fim dessas semanas, você vai saber qual mensagem faz a pessoa responder, qual funcionalidade segura o usuário e qual ninguém usa, e quanto custa, em esforço, trazer cada pessoa. Esses três aprendizados valem mais que os 100 cadastros. São eles que dizem se o produto merece a próxima rodada de investimento do seu bolso.

E quando o produto é o que está travando?

Às vezes a conversa individual revela outra coisa: as pessoas querem o produto, mas ele quebra, confunde ou não faz o essencial. Aí o gargalo não é distribuição, é construção. Nesse ponto, faz diferença ter um time que já passou por isso.

Na OCA, a gente constrói MVPs com essa fase em mente: produto enxuto de propósito, instrumentado para você enxergar onde o usuário trava, e com escopo desenhado para sobrar fôlego, e orçamento, para a etapa de conquistar usuários. É o que fizemos no nosso próprio produto e no que construímos para clientes: a primeira versão existe para aprender, não para impressionar.

Tire seu MVP do papel com a OCA

Sua tarefa desta semana

Isso você consegue validar essa semana, sem gastar nada: abra uma planilha, liste 20 pessoas reais que têm o problema que seu produto resolve e mande mensagem individual para 5 delas pedindo opinião, não venda. Se ninguém responder, ajuste a mensagem e tente mais 5. As respostas, inclusive os nãos, valem mais que qualquer plano de marketing que você escreveria no mesmo tempo.

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