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Criar um Aplicativo

Por que usuários abandonam seu app nos primeiros dias: como planejar a retenção antes de escrever uma linha de código

Gabriela Dionelli · · 6 min de leitura

person holding black android smartphone

Você está planejando seu aplicativo e a cabeça está cheia de perguntas sobre funcionalidades, custo e prazo. Mas existe uma pergunta que quase ninguém faz nessa fase, e ela decide o destino do produto: o que acontece nos três primeiros dias depois que alguém baixa o seu app?

Os números do mercado são duros. Em média, um aplicativo perde cerca de 70% dos usuários na primeira semana. A pessoa baixa, abre uma ou duas vezes, não entende o valor rápido o suficiente e nunca mais volta. O app continua instalado no celular por um tempo, como um lembrete silencioso, até ser apagado na próxima limpeza de armazenamento.

Respira. Vamos por partes. Isso não significa que seu app está condenado. Significa que retenção não é um problema para resolver depois do lançamento. É uma decisão de projeto, e você pode tomá-la agora, antes de gastar um real com desenvolvimento.

A pergunta certa não é "como atrair usuários"

Quase todo mundo que planeja um app pensa primeiro em aquisição: anúncios, redes sociais, assessoria de imprensa. A pergunta certa não é essa. A pergunta certa é: quando alguém abrir meu app pela primeira vez, em quanto tempo essa pessoa sente que valeu a pena?

Esse momento tem nome no mercado: momento "aha", o instante em que o usuário experimenta o valor prometido. No Spotify, é ouvir a primeira música que você queria. Num app de delivery, é o primeiro pedido chegando. Se esse momento demora demais, ou exige esforço demais, o cérebro do usuário faz uma conta simples e impiedosa: esforço maior que recompensa, aplicativo fechado.

Investir em atrair usuários para um app que não retém é encher um balde furado. Cada real de anúncio traz gente que vai embora em 72 horas. Por isso a retenção precisa ser desenhada antes da aquisição, e de preferência antes do desenvolvimento.

Por que as pessoas abandonam apps: o lado psicológico

Não é falta de educação do usuário nem azar. Existem padrões de comportamento muito bem documentados por trás do abandono. Os quatro mais comuns:

  • Cadastro antes do valor. Pedir e-mail, senha, CPF e telefone antes de mostrar qualquer coisa útil é pedir um pagamento antecipado em esforço. O usuário ainda não confia no app o suficiente para pagar esse preço. Cada campo de formulário a mais derruba a conversão.
  • Tela em branco. O usuário entra e o app está vazio: sem conteúdo, sem contatos, sem dados. Um app de finanças sem nenhuma transação registrada, uma rede sem nenhum amigo. Ele não vê o produto funcionando, vê uma promessa. Promessa não retém ninguém.
  • Sobrecarga de escolha. Doze funcionalidades na primeira tela parecem generosidade, mas o efeito é paralisia. Quando tudo grita por atenção, o usuário não sabe por onde começar e escolhe a saída mais fácil: fechar.
  • Pedido de permissão na hora errada. Notificações, localização e câmera solicitadas nos primeiros dez segundos, sem contexto, geram recusa. E um usuário que negou notificações é muito mais difícil de trazer de volta.

Repare que nenhum desses problemas é técnico. Todos são decisões de produto, e todas podem ser tomadas no papel, antes do código.

Como planejar a retenção antes de desenvolver: o passo a passo

Esse trabalho custa entre R$0 e muito pouco. O que ele exige é honestidade e algumas horas de dedicação.

  1. Defina o momento de valor em uma frase (custo: R$0). Complete: "o usuário sente que meu app valeu a pena quando ele ______". Se você precisa de duas frases, seu escopo está grande demais. Essa frase vira o norte de todas as decisões seguintes.
  2. Desenhe o caminho até esse momento (custo: R$0). Papel e caneta bastam. Liste cada tela e cada toque entre "abriu o app" e "sentiu o valor". Conte os passos. Mais de quatro ou cinco? Corte. Cada passo removido é retenção ganha.
  3. Adie tudo que não está nesse caminho (custo: R$0, economia: milhares de reais). Perfil completo, gamificação, chat, modo escuro: se não leva ao momento de valor, sai da primeira versão. Isso não é só estratégia de produto, é economia direta no orçamento de desenvolvimento. Seu primeiro produto não precisa ser perfeito. Precisa existir, e precisa reter.
  4. Decida quando pedir cadastro (custo: R$0). Regra prática: deixe o usuário provar o valor antes de pedir dados. Se o cadastro for inevitável desde o início, use login social (Google, Apple) e peça o mínimo. Cada campo extra é atrito, e atrito é abandono.
  5. Teste o fluxo com cinco pessoas (custo: R$0). Mostre os desenhos das telas, mesmo feitos à mão ou no Figma gratuito, para cinco pessoas do seu público. Peça que narrem o que fariam em cada tela. Onde elas hesitam, seus usuários reais vão abandonar. Isso você consegue validar essa semana, sem gastar nada.
  6. Planeje o motivo de retorno (custo: entra no escopo). Retenção não é só a primeira sessão, é a segunda e a terceira. Antes de desenvolver, responda: por que alguém abriria seu app de novo amanhã? Se a resposta for "vou mandar notificação", cuidado. Notificação sem valor novo dentro do app treina o usuário a ignorar ou desinstalar.

As armadilhas que custam caro nessa fase

Armadilha 1: confundir download com sucesso. Um founder comemora 5 mil downloads no primeiro mês e três meses depois descobre que tem 200 usuários ativos. O dinheiro de mídia foi para o balde furado. Downloads são vaidade, retorno na segunda semana é realidade.

Armadilha 2: copiar o onboarding de apps gigantes. "O Instagram pede cadastro logo de cara, vou fazer igual." O Instagram tem quinze anos de marca e o usuário já chega convencido. Seu app novo não tem esse crédito. Ele precisa provar valor primeiro, pedir dados depois.

Armadilha 3: deixar a retenção para a versão dois. "Lança logo, depois a gente melhora o onboarding." O problema é que a versão um queima sua base inicial, justamente os primeiros curiosos, os mais dispostos a dar uma chance. Reconquistar quem abandonou custa muito mais do que reter na primeira visita.

Armadilha 4: adicionar funcionalidade para resolver abandono. Quando o app não retém, a tentação é adicionar coisas: pontos, ranking, novidades. Quase sempre o problema é o oposto, excesso de fricção até o valor. Antes de adicionar, corte.

O que a gente aprendeu operando um app com 40 mil usuários

Na OCA, essa conversa não é teórica. O Revo App, nossa plataforma de descoberta e venda de ingressos para eventos, passou de 40 mil usuários cadastrados e movimenta mais de 300 eventos por mês. O número que mais nos orgulha, porém, é outro: o checkout converte em torno de 90%.

Essa conversão não veio de tecnologia sofisticada. Veio de obsessão em reduzir passos: menos campos, menos telas, menos decisões entre "quero esse ingresso" e "comprei". Cada fricção que removemos apareceu direto no resultado. É exatamente o mesmo princípio que vale para o seu onboarding.

Quando um cliente chega com uma ideia de aplicativo, a primeira coisa que fazemos não é orçar telas. É mapear o momento de valor e desenhar o caminho mais curto até ele, porque já vimos na prática, com nosso próprio produto, o que acontece quando esse caminho é longo demais. Se quiser ver o que já construímos, o portfólio da OCA está aberto.

Seu próximo passo essa semana

Antes de pedir orçamento para qualquer desenvolvedor, faça o exercício do passo 1: escreva em uma frase qual é o momento de valor do seu app e conte quantos passos separam o primeiro toque desse momento. Leve essa frase para a conversa com quem for desenvolver. Ela muda a qualidade do orçamento que você vai receber.

E se quiser conversar com um time que projeta retenção desde o primeiro rascunho, porque opera o próprio app em produção, a porta está aberta:

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