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Tecnologia e Negócios

LGPD em software sob medida: o mínimo obrigatório antes de colocar o sistema no ar (e quanto custa fazer certo desde o início)

Rafael Oliveira · · 9 min de leitura

a golden padlock sitting on top of a keyboard

O cenário é conhecido. A empresa contratou um sistema, o fornecedor entregou, e meses depois alguém do jurídico ou um cliente grande pergunta: "isso está adequado à LGPD?". A resposta que volta é um "sim" sem detalhe. Aí um ex-funcionário ainda consegue logar três meses depois de sair. Um cliente pede para apagar os dados dele e ninguém sabe fazer isso sem mexer direto no banco. O CPF de todo mundo está numa coluna de texto puro, e a planilha exportada do sistema circula por WhatsApp. Nenhum desses problemas apareceu no orçamento. Nenhum aparece na demonstração. Todos aparecem no pior momento possível: numa auditoria de fornecedor, numa reclamação na ANPD ou num vazamento.

Quem já passou por um projeto travado sabe do que estou falando. A diferença é que aqui o projeto não trava, ele funciona normalmente até o dia em que o custo aparece de uma vez.

Por que a LGPD vira problema depois da entrega

A causa é estrutural, não é má-fé de ninguém. A maioria das empresas trata a LGPD como um documento: contrata um advogado, publica uma política de privacidade e considera o assunto encerrado. Só que a política de privacidade cobre talvez 20% da lei. Os outros 80% são comportamento do sistema: quem acessa o quê, por quanto tempo o dado fica guardado, como ele é apagado, o que acontece quando vaza.

Esses comportamentos são requisitos de software. Se não estão no briefing, não estão no orçamento. Se não estão no orçamento, o fornecedor não constrói, porque ninguém pediu. E o dono da empresa só descobre quando precisa.

O barato que sai caro aqui é o seguinte: os mesmos requisitos que custam uma ou duas semanas quando entram no projeto desde o início custam de três a cinco vezes mais quando precisam ser encaixados em um sistema pronto, com dados reais dentro.

O checklist técnico mínimo de LGPD para um sistema

Não sou advogado e este texto não substitui um. O que segue é a visão de quem constrói e mantém sistemas que tratam dados pessoais de milhares de pessoas. É o mínimo que eu exijo antes de colocar qualquer sistema em produção.

1. Inventário de dados pessoais

Uma tabela simples: qual dado, onde fica, para que serve, com base em qual justificativa legal e por quanto tempo. Nome, CPF, e-mail, telefone, endereço, dados bancários, fotos, geolocalização. Leva de duas a quatro horas para um sistema de porte médio. Sem isso, nenhum dos itens seguintes é possível.

2. Base legal mapeada para cada dado

Consentimento não é a regra, é uma das dez bases legais previstas. Dado fiscal você guarda por obrigação legal. Dado de contrato você trata para executar o contrato. Pedir consentimento para algo que você é obrigado a guardar cria um problema: se a pessoa revogar, você não pode apagar mesmo. Mapear a base certa evita isso.

3. Controle de acesso e trilha de auditoria

Perfis de usuário com permissões distintas. Revogação imediata quando alguém sai. Registro de quem consultou, alterou ou exportou dados sensíveis, com data e hora. Em termos de engenharia é uma tabela de logs e um middleware. Em termos de negócio é a única forma de responder "quem viu esse cadastro?" quando a pergunta chegar.

4. Direitos do titular implementados como funcionalidade

A pessoa tem direito de saber quais dados você tem, corrigir, exportar e pedir exclusão. Isso precisa ser uma tela ou um fluxo operacional definido, não um comando SQL que só o fornecedor sabe rodar. Exclusão frequentemente vira anonimização, porque registros financeiros e fiscais precisam permanecer. O sistema tem que saber fazer essa distinção.

5. Regra de retenção e exclusão automática

Dado sem prazo de validade é passivo. Currículos de processos seletivos encerrados, leads que nunca responderam, logs de acesso de cinco anos atrás. Defina o prazo de cada categoria no inventário e implemente uma rotina que apaga ou anonimiza quando o prazo vence.

6. Segurança básica, sem exagero

  • HTTPS em tudo, sem exceção.
  • Senhas armazenadas com hash forte, nunca em texto puro ou criptografia reversível.
  • Chaves e senhas de serviço fora do código, em variáveis de ambiente ou gerenciador de segredos.
  • Backups criptografados e testados. Backup que nunca foi restaurado não é backup.
  • Autenticação em dois fatores para perfis administrativos.
  • Dados de cartão nunca passam pelo seu banco: ficam no gateway de pagamento.

7. Fornecedores que tocam nos dados

Nuvem, e-mail transacional, gateway de pagamento, ferramenta de analytics, suporte por chat. Cada um deles é um operador de dados na linguagem da lei. Você precisa saber quais são, em qual país os dados ficam e se o contrato deles cobre isso. A lista sai direto do inventário.

8. Plano de incidente e encarregado

Uma página: quem é acionado, como se identifica a extensão do problema, como se comunica aos titulares e à ANPD. A regulamentação atual da ANPD prevê comunicação em três dias úteis para incidentes relevantes. Não dá para montar esse plano no dia do vazamento. E defina quem é o encarregado, o contato oficial para assuntos de dados. Empresas de pequeno porte podem ter dispensa formal, mas alguém precisa atender quando um titular escrever.

O que a LGPD não exige (e o que você não precisa comprar)

Aqui é onde muita empresa gasta errado, geralmente por medo.

  • Banner de cookies em sistema interno com login. Se o usuário está autenticado e os cookies servem para manter a sessão, não há o que consentir. Banner é para site público com rastreamento de marketing.
  • Consentimento para tudo. Já expliquei acima. Pedir consentimento onde a base legal é outra cria um passivo, não resolve um.
  • "Certificação LGPD" ou "selo de conformidade". Não existe certificação oficial obrigatória. Existem boas práticas e auditorias, que valem quando um cliente exige, não como pré-requisito legal.
  • Criptografia de banco de dados inteiro em sistema pequeno. Criptografia em repouso no disco do provedor de nuvem já resolve o cenário mais comum e costuma vir ligada por padrão. Criptografar coluna a coluna tem custo de desempenho e complexidade que só se justifica para dados sensíveis específicos.

Não existe resposta única, mas existe conta certa. E a conta certa começa por não pagar pelo que não é necessário.

Quanto custa fazer certo desde o início versus consertar depois

Faixas reais, com as variáveis que fazem o número mudar.

Incluído no projeto desde o briefing: entre 5% e 10% do escopo total. Em um sistema de gestão orçado em R$ 80 mil, isso significa algo entre R$ 4 mil e R$ 8 mil, ou uma a duas semanas de trabalho distribuídas ao longo do projeto. Boa parte é decisão de arquitetura que custa quase nada quando tomada cedo: onde ficam os logs, como se modela exclusão, quais campos são sensíveis.

Encaixado em sistema já em produção: de três a cinco vezes esse valor, tipicamente entre R$ 15 mil e R$ 40 mil e de três a seis semanas. O custo vem de descobrir onde os dados estão espalhados, migrar dados existentes, criar trilha de auditoria onde nunca existiu e testar sem derrubar a operação. Se o sistema não tem documentação e o fornecedor original sumiu, o número sobe mais.

Custo mensal recorrente: baixo em infraestrutura, algumas dezenas de reais a mais em armazenamento de logs e backup. O custo real é operacional: alguém precisa responder solicitações de titulares e revisar acessos periodicamente. Em uma empresa pequena, poucas horas por mês.

O custo de não fazer: a multa prevista em lei chega a 2% do faturamento, limitada a R$ 50 milhões por infração. Na prática, para a maioria das empresas médias, o prejuízo chega antes da multa: é o cliente grande que audita fornecedores e não fecha, ou o contrato que exige adequação em 30 dias e vira um projeto de emergência.

As perguntas que decidem antes de contratar o sistema

Antes de assinar qualquer contrato, pergunta isso ao fornecedor:

  1. Onde os dados ficam armazenados e em qual país? Resposta vaga aqui é sinal de que ninguém pensou no assunto.
  2. Como um cliente meu é excluído do sistema, e o que acontece com o histórico financeiro dele? A resposta certa envolve anonimização e regra de retenção, não "a gente apaga do banco".
  3. Quem da equipe de vocês tem acesso ao banco de produção, e isso fica registrado?
  4. Como as senhas dos usuários são guardadas? A resposta precisa incluir a palavra "hash". Qualquer outra coisa é problema.
  5. Se houver um vazamento, o que vocês fazem nas primeiras 24 horas? Fornecedor que já tem um plano responde em um minuto.
  6. Esses itens estão no escopo desta proposta ou são adicionais? Não há resposta errada, desde que seja explícita. O problema é descobrir depois que era adicional.

Leve essas seis perguntas para a reunião. A qualidade das respostas diz mais sobre o fornecedor do que o portfólio.

Como a gente lida com isso nos sistemas que opera

Esse é o tipo de decisão que a OCA toma em todo projeto, porque a gente também é dona de produto. O Revo App, nossa plataforma de eventos, tem mais de 40 mil usuários cadastrados com nome, CPF, e-mail e histórico de compras. Dados de cartão nunca passam pelo nosso banco: ficam no gateway de pagamento, o que reduz drasticamente o que a gente precisa proteger. Exclusão de conta é um fluxo dentro do app, com anonimização do histórico de transações porque o registro fiscal precisa permanecer.

No sistema de gestão para imobiliárias que mantemos em produção, o volume de dado sensível é maior: documentos de locatários, fiadores, comprovantes de renda, contratos. Ali o controle de acesso por perfil e a trilha de auditoria foram desenhados antes da primeira tela, porque encaixar depois teria custado semanas. Você pode ver esses e outros casos no portfólio de projetos da OCA.

Nada disso é sofisticado. É rotina de engenharia feita na ordem certa.

O próximo passo concreto

Se você vai contratar um sistema, copie o checklist de oito itens acima e cole no seu briefing como seção obrigatória. Isso força o fornecedor a orçar o que importa e elimina a surpresa depois. Se o sistema já existe, comece pelo inventário de dados: é a parte mais barata e é o que revela o tamanho real do problema.

E se quiser conversar com quem constrói sistemas com esses requisitos no escopo desde o primeiro dia, e opera produtos com dezenas de milhares de usuários seguindo essas mesmas regras, o caminho é direto:

Converse com a OCA sobre o seu sistema

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