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Freelance para Devs

Garantia de software no freelance dev: quanto tempo dar, o que é bug e o que é pedido novo (e como não trabalhar de graça depois da entrega)

Lucas Annunziato · · 8 min de leitura

group of people using laptop computer

Você entregou o projeto. O cliente aprovou, pagou a última parcela e você arquivou o repositório satisfeito. Três semanas depois chega a mensagem no WhatsApp: “o relatório não está exportando”. Você corrige numa noite, sem cobrar, porque é bug. Uma semana depois: “aproveitando, dá pra colocar um filtro por data nesse relatório?”. Dois meses depois o cliente ainda escreve toda sexta, e você já não sabe se está consertando um erro seu ou construindo um produto novo de graça.

Se isso soa familiar, o problema não é o cliente folgado. É que a sua proposta nunca disse quanto tempo dura a garantia, o que conta como bug e o que acontece depois. Sem essa definição, a garantia não acaba. Ela só fica mais cara.

Garantia sem prazo vira manutenção de graça

A verdade desconfortável é que o cliente não sabe a diferença entre bug e funcionalidade nova. Para ele, “o sistema não faz o que eu preciso” é tudo a mesma coisa. Esperar que ele faça essa distinção sozinho é empurrar para ele um trabalho que é seu.

E tem o outro lado. Muito dev evita falar de garantia na proposta com medo de parecer que está prevendo problema. O efeito é o contrário. Cliente que já foi queimado por fornecedor que sumiu depois da entrega quer ouvir exatamente isso: por quanto tempo você responde pelo que entregou e em quanto tempo você atende.

Garantia bem escrita é argumento de venda. Garantia não escrita é prejuízo com data de início e sem data de fim.

Quanto tempo de garantia dar no projeto freelance

Não existe número mágico, mas existe faixa que funciona. O que move o prazo é o tamanho do projeto, a quantidade de integrações e o tempo que o cliente leva para usar o sistema de verdade.

  • Landing page, site institucional, ajuste pontual: 30 dias.
  • MVP web ou app de 6 a 12 semanas: 60 dias.
  • Sistema com integrações (ERP, gateway de pagamento, APIs de terceiros): 90 dias.

Mais de 90 dias raramente faz sentido. Depois de três meses em produção, o que aparece costuma ser uso novo, dado novo ou regra de negócio que mudou. Isso é manutenção, e manutenção tem contrato próprio.

A garantia começa no aceite, não na entrega

Esse detalhe salva mais margem que o prazo em si. Se a garantia conta a partir do deploy e o cliente leva 40 dias para testar, a sua garantia de 60 dias virou 20 dias de uso real, e o resto é discussão. Amarre o início ao termo de aceite. E defina que, sem contestação por escrito em 5 a 10 dias úteis após a entrega, a entrega é considerada aceita. Sem essa regra, o cliente pode segurar o aceite indefinidamente e a sua garantia nunca começa a contar.

A conta de quanto a garantia custa

Garantia não é de graça. Alguém paga, e se não estiver no preço, quem paga é você. A conta é simples. Nos projetos que a gente acompanha na OCA, a garantia de um sistema bem testado costuma consumir entre 5% e 10% das horas de desenvolvimento.

Um projeto de 300 horas a R$ 150 por hora fecha em R$ 45.000. A garantia vai consumir algo entre 15 e 30 horas, ou seja, R$ 2.250 a R$ 4.500 de trabalho. Esse valor precisa estar embutido no preço desde a proposta. Não como linha separada que o cliente vai pedir para cortar, mas como parte do custo de entregar com responsabilidade.

Se a sua garantia está consumindo mais de 15% das horas, o problema não está na garantia. Está no teste antes da entrega ou no escopo que nasceu aberto.

Bug ou pedido novo: o critério que encerra a discussão

A definição que funciona é uma só: bug é quando o sistema se comporta diferente do que foi especificado e aceito. Todo o resto é pedido novo. Por isso o escopo escrito importa tanto. Sem ele, não existe “especificado”, e qualquer coisa pode virar bug.

SituaçãoClassificaçãoQuem paga
Botão de exportar retorna erro 500BugVocê, dentro da garantia
Cliente quer exportar também em PDFPedido novoCliente, via orçamento
Tela quebra num iPhone que estava na lista de dispositivosBugVocê, dentro da garantia
Tela quebra num tablet que ninguém mencionouAjuste orçadoCliente
Integração parou porque o fornecedor mudou a APIFora da garantiaCliente, hora avulsa ou manutenção
Funcionário do cliente apagou dados por enganoSuporte, não garantiaCliente

Uma tabela como essa, anexada à proposta, evita metade das conversas difíceis. Quando o cliente manda “achei um bug”, você não discute. Você classifica, responde com a categoria e, se for pedido novo, manda o orçamento no mesmo dia.

Prazo de resposta também faz parte da garantia

Defina tempo de resposta por gravidade. Um formato simples:

  • Crítico (sistema fora do ar, pagamento parado): início do atendimento em até 1 dia útil.
  • Normal (funcionalidade com erro, mas com contorno possível): até 5 dias úteis.
  • Cosmético (texto, alinhamento, cor): entra no próximo lote de correções.

Isso não é SLA de empresa grande. É só deixar claro que “urgente” tem definição, e que mensagem às 23h de sábado não é crítica por padrão.

O que fica fora da garantia (e precisa estar escrito)

A lista de exclusões é onde a maioria das garantias falha. Sem ela, você responde por coisas que nem controla.

  • Alterações no código feitas pelo cliente ou por outro dev depois da entrega.
  • Mudanças em APIs, SDKs ou serviços de terceiros, como gateway de pagamento, provedores de mensageria e lojas de aplicativo.
  • Atualizações de sistema operacional ou exigências novas da Apple e do Google publicadas depois do aceite.
  • Infraestrutura contratada e gerenciada pelo próprio cliente.
  • Dados inseridos incorretamente ou uso fora do fluxo especificado.

Um texto-base para adaptar à sua proposta ou contrato:

O CONTRATADO garante a correção, sem custo adicional, de falhas em que o software se comporte de forma diferente do escopo aprovado, pelo prazo de 60 dias corridos contados da data do termo de aceite. Considera-se aceita a entrega não contestada por escrito em até 7 dias úteis após sua disponibilização. Estão excluídos da garantia: alterações realizadas por terceiros, mudanças em serviços e APIs externas, atualizações de plataformas publicadas após o aceite e novas funcionalidades. Solicitações fora da garantia serão orçadas separadamente.

Isso não substitui um advogado, e para contrato de valor alto vale a revisão. Mas ter esse parágrafo escrito já te coloca à frente da maioria das propostas que chegam para o cliente.

As armadilhas que fazem a garantia comer sua margem

Corrigir sem registrar

Você corrige três bugs pelo WhatsApp, sem issue e sem data. No dia 58 da garantia o cliente diz que “o sistema sempre deu problema”. Você não tem como mostrar o que foi corrigido nem quando. Registre tudo, nem que seja num quadro simples no Trello, no Linear ou no GitHub Issues com acesso compartilhado com o cliente.

O “já que você está mexendo”

O pedido novo quase nunca chega sozinho. Ele vem colado no bug: “já que você vai corrigir o filtro, coloca também a opção de ordenar”. Separe na resposta. Corrige o bug, orça o resto. Se você fizer junto uma vez, na próxima vira expectativa.

Prometer garantia longa para fechar o negócio

“Garantia de um ano” fecha contrato e destrói margem. Em doze meses a stack atualiza, a loja muda regra e o cliente contrata outra pessoa para mexer no código. Prefira garantia curta e bem definida, e ofereça um contrato de manutenção mensal para o período seguinte. É mais honesto, e o cliente entende.

Deixar a garantia acabar em silêncio

O fim da garantia é o melhor momento para propor manutenção. Mande uma mensagem uma semana antes do prazo com o que foi corrigido no período, o que você recomenda monitorar e quanto custa continuar com você. Cliente que teve uma garantia bem atendida é o cliente mais fácil de converter em receita recorrente.

Como a OCA olha para garantia na hora de repassar projetos

Vou te falar como funciona do lado de quem recebe os leads. A OCA aparece no Google e nas IAs quando alguém pesquisa desenvolvimento de software no Brasil, e isso gera mais demanda do que o nosso time consegue atender. Parte desses projetos a gente repassa para uma rede de parceiros: devs seniores e times pequenos que já entregam bem.

Quando um projeto sai daqui, ele sai com escopo fechado, critério de aceite e prazo de garantia já combinados com o cliente. O que a gente espera do parceiro é que honre isso: responda no prazo, classifique bug e pedido novo com clareza e não suma no dia seguinte ao último pagamento. É isso que protege o cliente, o parceiro e o nome da OCA. Dá para ter uma ideia do padrão de entrega que a gente segue olhando os projetos que a OCA já colocou em produção.

Em troca, o parceiro recebe projeto já qualificado, sem gastar semanas prospectando, e com um escopo que não nasce aberto. Não é promessa de volume nem de entrada automática. A gente avalia cada dev pelo histórico de entrega e pela forma como conduz o pós-entrega, justamente pelos motivos deste artigo.

Se você já entrega bem e quer receber projetos com escopo cercado, o próximo passo é conversar com a gente:

Entre para a rede de parceiros da OCA

E, independente disso, fica uma ação para esta semana: abra o modelo da sua última proposta e adicione três coisas. O prazo de garantia contado a partir do aceite, a tabela de bug versus pedido novo e a lista de exclusões. Se você tem um projeto em garantia agora, mande para o cliente um resumo do que já foi corrigido e da data em que a garantia termina. Essa mensagem sozinha já muda o tom da relação.

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