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MVP e Startups

Como precificar um MVP: por que lançar de graça sabota a validação e como cobrar desde o primeiro usuário

Gabriela Dionelli · · 8 min de leitura

a notepad with the words marketing strategy written on it

Você está a algumas semanas de lançar. O produto ainda nem existe direito e a pergunta já apareceu: cobro ou não cobro? A resposta que quase todo mundo dá para si mesmo é a mesma: "lanço de graça, pego usuários, depois eu vejo o preço". Parece prudente. Parece humilde. Na prática, é uma das decisões que mais atrasam a validação de um produto novo, e uma das que mais custam caro para quem está usando dinheiro próprio.

Respira. Vamos por partes. Este artigo é sobre a decisão de precificar antes de ter usuário: o que ela revela que nenhuma pesquisa revela, como chegar em um número sem chutar e o que você não precisa construir para começar a receber.

Por que "lanço de graça e depois eu vejo" custa caro

Um usuário gratuito te dá um sinal de interesse. Um usuário pagante te dá um sinal de valor. São coisas diferentes, e só a segunda valida um negócio.

Tem uma razão psicológica para isso. As pessoas dizem sim para coisas gratuitas por educação, por curiosidade ou para não te decepcionar. Não custa nada, então não exige decisão. Pagar, mesmo pouco, ativa a parte do cérebro que compara: "isso vale mais do que o que eu perco?". É exatamente esse desconforto que separa "gostei" de "preciso". Quando você tira o preço do jogo, tira também o único filtro que responde a pergunta que importa.

Tem um segundo problema, mais prático. Passar de grátis para pago depois é um segundo lançamento, e o pior deles. Você vai ter que convencer pessoas que já se acostumaram a não pagar. Uma parte vai embora com raiva, outra vai negociar, e o número que sobra costuma ser pequeno o suficiente para você duvidar do produto inteiro. O preço de lançamento vira a referência mental de todo mundo. E a referência mais difícil de mudar é zero.

A mudança de mentalidade: preço é parte do produto, não uma etapa depois

A pergunta certa não é "cobro ou não cobro?". A pergunta certa é: quem paga por isso, quanto, e por qual resultado?

Quando você olha assim, o preço deixa de ser uma decisão financeira e vira uma hipótese, igual a qualquer funcionalidade. E é a hipótese mais barata que você tem para testar. Testar uma funcionalidade exige construir. Testar um preço exige dizer um número em voz alta e observar o rosto da pessoa.

Seu primeiro produto não precisa ser perfeito. Precisa existir. E, para existir como negócio, precisa ter alguém do outro lado disposto a pagar. Isso você descobre antes da primeira linha de código.

O passo a passo para definir o preço do MVP (com o custo de cada etapa)

  1. Nomeie o resultado que o cliente compra. Custo: R$0. Ninguém paga por "um app de gestão de agenda". Pagam por "parar de perder cliente que marca e não aparece". Complete a frase: "meu cliente paga para conseguir X sem precisar de Y". Se você não consegue terminar essa frase em uma linha, o problema ainda não é preço, é clareza.

  2. Descubra quanto a alternativa atual custa. Custo: R$0. Hoje, sem o seu produto, esse cliente resolve o problema de algum jeito: uma planilha, um funcionário, uma ferramenta gringa, ou simplesmente perde dinheiro. Some o que isso custa por mês em tempo ou em reais. Esse número é a sua âncora. Uma regra prática que funciona bem para produtos novos: cobrar entre 10% e 20% do valor que o cliente ganha ou economiza, ou ficar claramente abaixo do que ele já gasta com a alternativa.

  3. Escolha o modelo mais simples possível. Custo: R$0. Um plano, um preço. Assinatura mensal se o valor é contínuo, pagamento único se o valor é pontual, cobrança por uso se o cliente só ganha quando usa. Três planos com tabela comparativa antes de ter dez clientes é energia gasta em uma decisão que você não tem dados para tomar. Freemium fica por último na lista: ele só funciona com volume grande e uma barreira muito clara entre o grátis e o pago, e a maioria dos MVPs não tem nem um nem outro.

  4. Teste o preço antes do produto. Custo: de R$0 a R$300. Uma página simples com a promessa, o preço e um botão de "quero começar" já mede se o número assusta ou não. Melhor ainda: dez conversas com pessoas do perfil onde você diz o preço e observa. Silêncio, olhar para o lado e "vou pensar" significam não. "Como eu pago?" significa sim. Se você quiser ir mais longe, faça pré-venda com direito a reembolso: quem transfere dinheiro antes do produto existir está te dando a validação mais honesta que existe.

  5. Cobre de verdade dos primeiros clientes, mesmo com desconto. Custo: R$0 em desenvolvimento. Dê um preço de fundador, dê desconto pelos primeiros meses, mas não dê zero. Um Pix mensal ou um link de pagamento gerado à mão resolve para os primeiros dez, vinte ou cinquenta clientes. Você não precisa de checkout dentro do produto para receber. Precisa de alguém disposto a pagar.

  6. Só construa o checkout quando tiver quem pague. Custo: entre R$8.000 e R$25.000 e de duas a quatro semanas de desenvolvimento, dependendo de recorrência, cancelamento, reembolso, cupom e nota fiscal. É uma peça cara e sensível, porque erro ali envolve dinheiro do cliente. Faz sentido construir quando a cobrança manual começa a atrapalhar ou quando o modelo é por uso e precisa acontecer dentro do produto. Antes disso, é investimento em uma funcionalidade que ninguém pediu.

As armadilhas que queimam dinheiro nessa fase

Freemium no dia zero

Um exemplo comum: um app de agendamento para profissionais autônomos lança gratuito, chega a 400 cadastros em seis meses e comemora. Zero pagantes. Quando o fundador finalmente cria o plano pago, descobre que a taxa de conversão de freemium em produtos maduros costuma ficar entre 2% e 5%. Com 400 usuários, isso dá entre 8 e 20 clientes, na melhor hipótese. Seis meses de servidor, suporte e ansiedade para chegar ao mesmo lugar que dez conversas com preço na mesa teriam mostrado na primeira semana.

Preço baixo "para não assustar"

Cobrar R$9,90 por mês parece um jeito seguro de começar. O problema é que preço baixo atrai quem valoriza pouco, e quem valoriza pouco cancela rápido, pede mais suporte e reclama mais. O custo de atender um cliente de R$9,90 é o mesmo de atender um de R$99. E tem o efeito no cliente certo: para uma empresa que perde R$3.000 por mês com o problema que você resolve, R$9,90 soa como brinquedo, não como solução.

Construir o sistema de cobrança antes do primeiro pagante

Planos, cupons, upgrade, downgrade, período de teste, e-mail de cobrança. É fácil gastar um mês inteiro de desenvolvimento nisso antes de existir uma única pessoa pagando. Cobrança manual é feia e funciona. A hora de automatizar é quando ela começa a tomar tempo demais, e isso só acontece com clientes de verdade.

Copiar o preço do concorrente gringo em dólar convertido

O concorrente americano cobra 29 dólares. Convertido, dá algo perto de R$160. O seu cliente brasileiro compara com o salário dele, com a planilha grátis e com o WhatsApp, não com o mercado americano. A âncora certa é o que o seu cliente já gasta, não o que outra empresa cobra em outro país.

Onde a OCA entra quando chega a hora de construir

Quando o preço já foi testado e existe gente pagando pelo Pix, a próxima pergunta natural é: "e quem constrói o produto com a cobrança dentro?". É nessa etapa que a gente entra.

A gente opera o próprio produto, o Revo App, uma plataforma de eventos com mais de 40 mil usuários e um checkout próprio que converte a 90%. Esse número não veio de uma primeira versão bem desenhada. Veio de meses ajustando um fluxo de pagamento em cima de dados de venda real: onde as pessoas travavam, o que faziam abandonar, o que fazia pagar. É esse aprendizado que a gente traz para o MVP de cliente: começar com a cobrança mínima que funciona, medir e só então sofisticar.

Na prática, isso significa que a gente vai te dizer o que não construir na primeira versão, inclusive no sistema de pagamento. Um MVP com um plano, um preço e um fluxo de cobrança simples sai mais rápido, custa menos e te coloca na frente do cliente pagante em semanas, não em meses. Você pode ver outros produtos que a gente já colocou em produção em nosso portfólio de projetos.

Tire seu MVP do papel com a OCA

O próximo passo concreto: essa semana, sem gastar nada

Escreva uma frase: "[perfil de cliente] paga R$[valor] por mês para [resultado]". Depois, encontre cinco pessoas que se encaixem nesse perfil e diga a frase para elas, com o número, olhando para a reação. Não pergunte "você pagaria?". Pergunte "você quer começar esse mês?".

Se três das cinco disserem sim, você tem um preço e três primeiros clientes. Se nenhuma disser, você acabou de economizar meses de desenvolvimento e descobriu que o problema está no resultado, no perfil ou no valor. Qualquer uma dessas respostas vale mais do que 400 cadastros gratuitos.

Isso você consegue validar essa semana, sem gastar nada.

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