CLT ou PJ para dev em 2026: quanto faturar como PJ para empatar com o salário CLT (e a conta da hora no freelance)
Lucas Annunziato · · 9 min de leitura
Chegou uma proposta PJ de R$ 15 mil por mês. Você ganha R$ 12 mil de salário CLT. Parecem 25% a mais, e dá vontade de aceitar na hora. Ou o caso oposto: você pensa em largar o CLT para pegar projeto freelance e calculou o preço da sua hora dividindo o salário por 160.
Nos dois casos a conta está errada. E o erro não é pequeno: no fim do ano a diferença pode passar de 40%. Salário bruto, valor da nota fiscal e preço da hora freelance são três números que não dá para comparar direto. Mesmo assim, quase todo dev que eu conheço já tomou alguma decisão de carreira tratando os três como se fossem a mesma coisa.
Aqui está a conta completa, com números de 2026, para você decidir com a planilha na mão e não no impulso. Não existe uma resposta certa para todo mundo. Existe a conta certa para a sua situação.
CLT ou PJ: por que comparar o salário bruto com o valor da nota engana
O salário CLT é só a parte visível de um pacote. Em cima dele vêm 13º, um terço de férias, FGTS, benefícios e uma proteção que não aparece no holerite: aviso prévio, multa de 40% do FGTS e seguro-desemprego. No PJ você recebe o valor da nota e passa a pagar sozinho por tudo isso. Ainda entram o imposto da empresa, o contador e o plano de saúde.
A verdade desconfortável é esta: um PJ que fatura só 20% ou 25% acima do salário CLT bruto quase sempre ganha menos. Ele só descobre em dezembro, quando o 13º não chega, ou no mês em que tira férias e não emite nota.
Isso não quer dizer que o CLT é o caminho errado. Para quem tem família, financiamento ou simplesmente prefere estabilidade, o risco pesa mais que a diferença de dinheiro. E tudo bem. O que não dá é decidir sem saber quanto cada lado paga de verdade.
Quanto vale o salário CLT de verdade: a conta do pacote completo
Vamos a um exemplo concreto: dev pleno ou sênior em São Paulo, com salário bruto de R$ 12.000, vale-refeição e plano de saúde pagos pela empresa. Os valores são aproximados e arredondados, em 12 meses:
| Item | Valor anual líquido |
|---|---|
| Salário líquido (após INSS e IR), 12 meses | R$ 106.800 |
| 13º salário líquido | R$ 8.900 |
| Adicional de 1/3 de férias líquido | R$ 2.900 |
| FGTS (8% sobre salário, 13º e férias) | R$ 12.800 |
| Benefícios (VR e plano de saúde, cerca de R$ 1.500/mês) | R$ 18.000 |
| Total | R$ 149.400 |
O número que importa é esse: cerca de R$ 149 mil por ano no bolso, ou R$ 12.450 por mês, já com 30 dias de férias remuneradas. E a conta ainda deixa de fora a proteção na demissão, que é difícil de precificar mas existe.
Se a sua empresa paga PLR, previdência privada ou auxílio home office, some esses valores. Se não oferece plano de saúde, tire. A estrutura da conta continua a mesma.
Quanto faturar como PJ para empatar com o CLT
Agora o lado PJ. Programador não pode ser MEI, então o caminho comum é abrir uma ME no Simples Nacional com CNAE de desenvolvimento de software. Com o fator R, que exige pró-labore de pelo menos 28% do faturamento, a empresa fica no Anexo III, com alíquota efetiva perto de 6% nessa faixa de receita. Sem o fator R, ela cai no Anexo V, que começa em 15,5%.
Para o mesmo dev, com nota de R$ 17.000 por mês e 11 meses faturados (um mês de descanso sem nota, porque PJ não tem férias remuneradas), a conta fica assim:
| Item | Valor anual |
|---|---|
| Faturamento (11 × R$ 17.000) | R$ 187.000 |
| Simples Nacional, Anexo III (cerca de 6,2% efetivo) | - R$ 11.600 |
| INSS de 11% sobre o pró-labore | - R$ 5.800 |
| Contador (cerca de R$ 350/mês) | - R$ 4.200 |
| Plano de saúde próprio (cerca de R$ 1.000/mês) | - R$ 12.000 |
| Equipamento e ferramentas | - R$ 4.000 |
| Sobra | R$ 149.400 |
Empatou. Olhe o número com atenção: R$ 17.000 de nota para empatar com R$ 12.000 de CLT, um multiplicador de cerca de 1,4x. Aquela proposta de R$ 15 mil do começo do artigo, que parecia 25% a mais, na prática paga menos que o emprego atual.
Com o pró-labore nessa faixa, o IR da pessoa física fica perto de zero por causa da isenção ampliada em 2026, e a distribuição de lucros continua isenta nesse volume. Se a sua faixa for diferente, refaça a conta com o contador. A reforma tributária está em transição, e vale revisar a conta do Simples todo ano.
Empatar não basta
No 1,4x o dinheiro empata, mas o risco não. Um contrato PJ costuma terminar com 30 dias de aviso, sem multa e sem seguro-desemprego. Para compensar, você precisa de uma reserva de pelo menos seis meses de custo de vida. Essa reserva sai da diferença entre o empate e o que você cobra.
Por isso, para PJ fixo, eu considero saudável a faixa de 1,6x a 1,8x o salário CLT bruto. No exemplo, isso dá entre R$ 19.200 e R$ 21.600 por mês. Abaixo de 1,4x, você está pagando para trabalhar sem carteira.
Freelance por projeto: a conta da hora que quase ninguém faz
É aqui que está o erro mais caro. O dev divide o salário CLT por 176 horas e chega a R$ 68 por hora. Aí cobra R$ 80 achando que está ganhando bem. A conta mostra o contrário.
No PJ fixo, quase toda hora trabalhada é faturada. No freelance por projeto, não. Vai tempo em prospecção, call de diagnóstico que não fecha, proposta, reunião de alinhamento, suporte pós-entrega, burocracia e, principalmente, no intervalo entre um projeto e outro. Na prática, quem está começando fatura entre 50% e 65% das horas que trabalha.
A conta simples:
- Horas disponíveis no ano: 11 meses × 21 dias × 8 horas, cerca de 1.850 horas.
- Horas faturáveis a 60%: cerca de 1.100 horas.
- Faturamento para empatar com o CLT de R$ 12 mil: os mesmos R$ 187 mil do PJ, mais uns R$ 3 mil de site, domínio e ferramentas de venda. Cerca de R$ 190 mil.
- Preço mínimo da hora: R$ 190.000 ÷ 1.100, ou seja, cerca de R$ 173 por hora.
Os três números do mesmo dev, lado a lado:
- CLT: R$ 68 por hora de salário bruto.
- PJ fixo, só para empatar: cerca de R$ 97 por hora (1,4x).
- Freelance por projeto, só para empatar: cerca de R$ 173 por hora (2,5x).
E isso é só o empate, sem margem para risco nem para mês fraco. Quem cobra R$ 80 por hora no freelance está pagando para ter o trabalho de achar cliente. Se você fecha por escopo e não por hora, a lógica é a mesma: a estimativa de horas vezes esse piso define o valor mínimo da proposta.
As armadilhas que fazem o PJ perder dinheiro sem perceber
- Esquecer o fator R. O contador abre a empresa, você define um pró-labore baixo para economizar INSS e a empresa cai no Anexo V. A alíquota pula de cerca de 6% para mais de 15%. Numa nota de R$ 17 mil, isso passa de R$ 1.500 por mês.
- Não guardar dinheiro para o mês sem nota. Todo mês entra a nota inteira e parece que está sobrando. Separe cerca de 10% do líquido todo mês para o mês de descanso. Sem isso, as férias viram dívida.
- PJ que na prática é CLT sem direitos. Horário fixo, chefe direto, exclusividade, ponto eletrônico. Isso é vínculo empregatício com outro nome, uma zona cinzenta jurídica que pesa contra você quando o contrato acaba mal. Se a empresa quer tudo de CLT, a nota precisa cobrir tudo de CLT, e mais o risco.
- Aceitar reajuste zero. O CLT tem dissídio. O PJ só tem reajuste se você negociar. Coloque um índice de correção anual no contrato, como IPCA ou IGP-M, desde o primeiro dia.
- Tratar freelance como PJ fixo. Sair do CLT direto para projeto freelance cobrando preço de PJ fixo é o jeito mais rápido de cair no primeiro buraco financeiro. As horas não faturadas existem, e você só percebe quando elas faltam no extrato.
O que a planilha não resolve: de onde vem o próximo projeto
A planilha inteira parte de uma premissa: que vai ter trabalho suficiente para faturar as 1.100 horas. No PJ fixo o cliente é um só, e a premissa vale enquanto o contrato durar. No freelance, os 60% de horas faturáveis só acontecem se o pipeline estiver cheio.
Vou te falar como funciona do lado de quem recebe os leads: a OCA aparece no Google e é citada por assistentes de IA quando alguém pesquisa desenvolvimento de software no Brasil. Isso gera dezenas de pedidos de orçamento por dia, mais do que o nosso time consegue atender. Isso não é teoria, é literalmente como a OCA cresceu, e qualquer dev pode montar a mesma máquina com tempo e consistência.
Enquanto você não tem a sua máquina, existe outro caminho. A demanda que a OCA não consegue absorver vai para uma rede de parceiros: devs seniores e times pequenos que recebem projetos já qualificados, com escopo definido. Sendo honesto sobre o que isso é e o que não é:
- O que a gente espera: entrega sênior de verdade, comunicação clara com cliente não técnico, prazo cumprido e preço coerente com a conta deste artigo. Parceiro que cobra abaixo do empate quebra no meio do projeto, e quem sofre é o cliente.
- O que o parceiro recebe: projetos que já passaram por qualificação e definição de escopo, sem gastar horas não faturáveis caçando cliente. Isso aumenta direto a sua taxa de horas faturadas.
- O que a gente não promete: volume fixo de projetos, renda mensal ou entrada automática na rede. Todo parceiro passa por avaliação, e a quantidade de projetos depende da demanda e do encaixe com a sua stack.
Para entender o tipo de produto que a gente constrói e opera, dá uma olhada no portfólio de projetos da OCA.
Faça a sua conta esta semana
Entrando na rede ou não, faça isto antes de responder qualquer proposta PJ ou de pedir demissão:
- Pegue o último holerite e monte a tabela do pacote CLT com os seus números reais: líquido, 13º, férias, FGTS e benefícios.
- Divida o total por 12. O número que você compara é esse, e não o salário bruto.
- Multiplique o salário bruto por 1,4 para achar o empate no PJ fixo, e por 1,6 a 1,8 para achar o preço saudável.
- Se o plano é freelance, divida o faturamento necessário por 60% das suas horas disponíveis. Esse é o piso da sua hora.
- Leve a planilha para um contador antes de abrir o CNPJ e confirme o enquadramento no fator R.
Se a conta fechar e você já entrega bem, o seu problema não é técnico, é distribuição. Aí a gente pode conversar.