CLT ou PJ para dev em 2026: quanto pedir como PJ para empatar com o salário CLT (e a hora mínima no freelance)
Lucas Annunziato · · 9 min de leitura
Você é CLT, ganha R$ 12 mil brutos e recebeu uma proposta PJ de R$ 15 mil. No papel, é um aumento de 25%. Ou a sua conta é outra: sair do emprego e atender clientes direto, cobrando por hora. Nos dois casos, a pergunta é a mesma: quanto eu preciso faturar para não sair perdendo?
A maioria dos devs responde com a conta errada. Divide o salário por 160 horas, compara bruto com bruto e esquece que o plano de saúde agora sai do próprio bolso. Aí aceita uma proposta que, no fim do ano, paga menos que o emprego antigo.
Este artigo faz a conta inteira, com números de 2026, para três cenários: CLT, PJ com contrato mensal e freelance por projeto. Não torço por nenhum deles. Cada um tem um preço, e a ideia é você enxergar esse preço antes de assinar.
A verdade desconfortável: seu salário CLT vale bem mais que o número do holerite
O salário bruto é só a parte visível do pacote. Junto com ele vêm o 13º, o terço de férias, o FGTS de 8% depositado pela empresa e os benefícios: vale-refeição, plano de saúde e, às vezes, auxílio home office. Nada disso aparece quando você compara R$ 12 mil com R$ 15 mil.
Do outro lado, o valor PJ também não é o que cai na sua conta. Dele saem o imposto do Simples, o INSS do pró-labore, o contador, o plano de saúde, a alimentação e os meses em que você não fatura. Comparar bruto CLT com bruto PJ é comparar coisas diferentes.
A conta é simples. Só precisa ser feita inteira.
Quanto vale de verdade um salário CLT de R$ 12 mil em 2026
Vamos usar um dev pleno ou sênior com salário de R$ 12 mil, vale-refeição de R$ 1.000 e um plano de saúde que custaria uns R$ 900 por mês se ele mesmo pagasse. Os valores são aproximados, mas a ordem de grandeza é essa.
| Item | Valor anual |
|---|---|
| 12 salários (um deles é o mês de férias) | R$ 144.000 |
| 13º salário | R$ 12.000 |
| Terço de férias | R$ 4.000 |
| Total bruto | R$ 160.000 |
| Líquido em mãos depois de INSS e IR | cerca de R$ 118.000 a R$ 120.000 |
| FGTS (8% sobre o bruto) | R$ 12.800 |
| Vale-refeição | R$ 12.000 |
| Plano de saúde (valor equivalente) | R$ 10.800 |
| Pacote total líquido | cerca de R$ 154.000 |
Tem dois detalhes que dev costuma errar. Primeiro, férias não são um salário a mais: o mês de férias substitui um salário, e o extra é só o terço. Segundo, nessa faixa o INSS do CLT bate no teto, perto de R$ 1 mil por mês, e o IR fica na alíquota de 27,5%. Por isso o líquido mensal fica por volta de R$ 8,9 mil.
Esse número, cerca de R$ 154 mil por ano, é o que você precisa empatar. Não R$ 144 mil, nem R$ 160 mil.
Quanto pedir como PJ para empatar com o CLT
Para dev PJ, o caminho padrão é abrir uma empresa no Simples Nacional. Desenvolvimento de software não pode ser MEI, então pode esquecer essa opção. No Simples, programação cai no Anexo III, que começa em 6% sobre o faturamento, desde que você cumpra o Fator R: pró-labore de pelo menos 28% do faturamento. Se não cumprir, vai para o Anexo V, que começa em 15,5%. Num mês de R$ 16 mil, é a diferença entre pagar cerca de R$ 1 mil ou R$ 2,5 mil de imposto.
Os custos de um PJ faturando entre R$ 15 mil e R$ 18 mil por mês ficam mais ou menos assim:
- DAS do Simples: de 6% a 6,5% do faturamento. Acima de R$ 180 mil por ano, a alíquota efetiva sobe um pouco.
- INSS do pró-labore: 11% sobre o pró-labore, algo entre R$ 450 e R$ 600 por mês.
- IR do pró-labore: baixo ou zero nessa faixa, por causa da isenção até R$ 5 mil que vale desde janeiro de 2026.
- Contador: entre R$ 250 e R$ 600 por mês.
- Plano de saúde e alimentação: agora por sua conta, cerca de R$ 1.900 por mês no nosso exemplo.
Com isso, dá para comparar cenários reais com o pacote CLT de R$ 154 mil:
| Proposta PJ | Meses recebidos | Líquido anual (já descontando plano e alimentação) | Comparado ao CLT |
|---|---|---|---|
| R$ 15 mil | 12 | cerca de R$ 137 mil | perde uns R$ 17 mil |
| R$ 16,5 mil | 12 | cerca de R$ 152 mil | empata |
| R$ 16,5 mil | 11 (férias sem receber) | cerca de R$ 137 mil | perde uns R$ 17 mil |
| R$ 18 mil | 11 (férias sem receber) | cerca de R$ 152 mil | empata |
Repare: os R$ 15 mil que pareciam 25% de aumento são, na prática, um corte de uns R$ 17 mil por ano. E isso para só empatar. O PJ não tem seguro-desemprego, multa de 40% do FGTS nem aviso prévio. Esse risco também precisa entrar no preço.
A regra que eu uso: 1,4x o salário CLT é o piso se os 12 meses forem pagos, 1,5x se as férias forem por sua conta, e a negociação começa acima disso para cobrir o risco. Simule com o seu contador antes de fechar, porque dependentes, benefícios e a alíquota exata mudam o número.
Um aviso que não é jurídico, mas é honesto: PJ com horário fixo, chefe direto e exclusividade é, na prática, um emprego sem os direitos. A Justiça do Trabalho olha para isso, e o tema segue em discussão. Se a proposta tem cara de CLT, negocie como quem está abrindo mão de proteção e, se tiver dúvida, converse com um advogado.
Freelance por projeto: a hora mínima que empata com o CLT
No freelance, a conta muda porque você não vende 160 horas por mês. Parte do tempo vai para proposta, call com cliente que não fecha, financeiro e suporte. Na prática, a maioria dos freelancers fatura entre 80 e 120 horas por mês.
Para chegar aos mesmos R$ 152 mil a R$ 154 mil líquidos do exemplo, você precisa de uns R$ 198 mil de faturamento em 11 meses. Some ferramentas e equipamento (notebook trocado a cada três anos, licenças, assinaturas de IA, servidor de teste), cerca de R$ 500 por mês, e o alvo fica perto de R$ 205 mil por ano.
| Horas faturáveis por mês | Horas no ano (11 meses) | Hora mínima para empatar |
|---|---|---|
| 80 | 880 | cerca de R$ 233 |
| 100 | 1.100 | cerca de R$ 186 |
| 120 | 1.320 | cerca de R$ 155 |
Agora compare com a conta ingênua: R$ 12 mil divididos por 160 horas dá R$ 75 a hora. A diferença entre R$ 75 e R$ 186 é exatamente o que separa o freelancer que volta para o CLT em seis meses do que consegue ficar.
E ainda tem a variância. CLT paga todo mês. Freelance tem mês cheio e mês vazio. A hora mínima só funciona se você tiver projeto entrando com regularidade, e aí a questão deixa de ser técnica. Se você já entrega bem, o seu problema não é técnico, é distribuição.
As armadilhas que transformam aumento em prejuízo
Comparar bruto com bruto
É o erro número um. Antes de responder qualquer proposta, converta tudo para líquido anual com benefícios. Se o recrutador falar em valor mensal PJ, pergunte quantos meses por ano são pagos e se existe recesso remunerado.
Abrir MEI para economizar
As atividades de desenvolvimento de software não são permitidas no MEI. Abrir com um CNAE que não corresponde ao que você faz pode virar desenquadramento, cobrança retroativa e dor de cabeça com cliente que exige nota correta. O barato sai caro.
Cair no Anexo V sem perceber
Se o contador não define um pró-labore de pelo menos 28% do faturamento, você paga 15,5% ou mais em vez de 6%. Olhe a guia do DAS no primeiro mês. Se a alíquota estiver acima de 7%, pergunte por quê.
Não ter reserva para o mês sem receita
Contrato PJ costuma acabar com 30 dias de aviso, sem multa. No freelance, o intervalo entre projetos é normal. Antes de sair do CLT, tenha pelo menos seis meses de custo de vida guardados. Sem isso, você vai aceitar projeto ruim por desespero, e projeto ruim custa mais que mês vazio.
Tratar o faturamento como salário
Separe três coisas: pró-labore, lucro distribuído e caixa da empresa para impostos e meses fracos. A distribuição de lucro continua isenta para a maioria dos devs. A retenção de 10% criada para 2026 só pega quem recebe mais de R$ 50 mil por mês da mesma empresa. A reforma tributária começa a mexer na conta das empresas de serviço a partir de 2027, então revise o enquadramento com o contador todo ano.
Do lado de quem recebe os leads: onde a rede de parceiros da OCA entra
Vou te falar como funciona do lado de quem recebe os leads: a OCA aparece no Google e nas IAs quando alguém procura desenvolvimento de software no Brasil. Isso traz dezenas de pedidos de orçamento por dia, mais do que o nosso time sênior consegue atender. Isso não é teoria, é literalmente como a OCA cresceu, construindo produto próprio como o Revo, com mais de 40 mil usuários, e os projetos que já colocamos em produção.
O excesso de demanda vai para uma rede de parceiros: devs e pequenos times seniores que recebem projetos já qualificados, com escopo definido e um cliente que já confiou em uma marca. Na tabela do freelance, isso mexe justamente na linha que mais assusta quem sai do CLT: as horas faturáveis e o mês vazio.
O que a gente espera de um parceiro é direto: CNPJ ativo e emissão de nota fiscal, entrega de nível sênior, update semanal com o cliente e contrato assinado antes de começar. Não prometo volume de projetos nem aprovação na rede. Cada dev e cada projeto são avaliados. Mas, se você já fez a conta acima e o que te segura é o medo de não ter cliente, vale a conversa.
Entre para a rede de parceiros da OCA
O que fazer esta semana
Independente da rede, pegue o seu holerite e preencha as três tabelas com os seus números: o pacote CLT total líquido, o valor PJ que empata com 11 meses pagos e a hora mínima com 100 horas faturáveis. Anote esses três números. Qualquer proposta abaixo deles recebe um não ou vira negociação. Fazer essa conta leva uma hora e pode evitar um ano trabalhando por menos do que ganha hoje.